Teresa,

você não sabe o que é uma tevê. Não sabe para que serve. Olha para aquele retângulo inútil na parede, tenta pressionar o que supõe ser pressionável, leva giz de cera e risca a tela, passa uva, pera e pêssego nas laterais para testar se algo acontece, já jogou água gelada e a reação não veio. Acorda! Nada. Você não se decepeciona, nem se irrita. Apenas desiste do que não existe. Age diante do que não reage. Volta para o que interessa, onde os assuntos úteis realmente estão. No quintal, na sala, no meio dos brinquedos largados, na cozinha – de onde sai um cheiro que te interessa, mais um assunto novo, no corredor, no banheiro, a casa é divertida demais. Pede para ver os cachorros que latem na rua. Segura sozinha seu copo d’água. Corre para testar o equilíbrio sobre o chão meio escorregadio. Aprende no entorno imediato tantos assuntos novos que mal dorme à noite, sonhando sem parar, aprendendo, registrando tudo que se passou no dia. Nunca fomos radicais com a questão, mas desde a mudança de endereço, a empresa que deveria instalar internet e serviços de tevê não foi. Não fez falta, nesses sessenta dias. O conteúdo dos canais infantis brasileiros é lastimável. Elitista. Superficial. Repetitivo. Ofensivo. Tem mais, tem o melhor lado dessa história em capítulos bem escritos: estamos brincando (ainda) mais, descobrindo livros novos, voltamos a tocar violão e ukulele como uma banda desorganizada, dançar virou rotina, pular corda um momento épico, deitar na grama um hábito diário. Você entendeu as plantas, a chuva que cai no quintal, o sol que esquenta o chão e faz com que precise voltar para o seu quarto, calçar um chinelo e voltar à brincadeira. O controle remoto virou uma espada inofensiva (não liga nada). O cabo do aparelho de tevê serve, agora, para puxar um cachorrinho de plástico (funciona muito bem). A empresa que instala o serviço foi contactada por sua mãe e fizemos o cancelamento definitivo. Já experimentou passar purê na tela, filha? Chama João e Irene, eles te ajudam nessa. 


Do seu pai,
Pedro