Irene,

vaca ou gato, aqui estão. Que indecisão, esse sapato. Porque um tem as orelhas charmosas, o outro tem um olho malhado – fora que um combina com o céu, outro com o caminho asfaltado. Poderia ter escolhido nenhum dos dois, saído de – sei lá – botas de rinoceronte. Mas ia se arrepender no próximo passo, bem em cima da ponte. Vai que arrependimento mata? Mata nada. Volta, pensamento, sai do descompasso. Direita, esquerda, qual mão você escolhe, pai? – pergunta. E logo em seguida põe na frente as mãos – e junta.  Que responsabilidade enorme, a minha, escolher seu caminhar. Posso não, filha, descruza essas mãos e me dá um abraço, vem cá. Deixa te contar um segredo; uma coisa para não esquecer de lembrar mesmo quando nem pensar. Os teus pés devem te levar, do jeito que você quiser, por onde quer que você vá. Saiu galopante, leve e saltitante. Usava o gato à esquerda, a vaca do outro lado. E debaixo dos seus pés, o chão parecia feliz e realizado.
 

Do seu pai,

Pedro