João,

você nem sabe, mas quando a gente vira pai – principalmente pai de pessoas como você – alguns assuntos são resolvidos de forma surpreendente. Vou te contar sobre o sábado passado. Passamos na frente do Estádio do Pacaembu e vimos um movimento atípico – melhor: típico. Um amontoado de vermelho, branco e preto, meio dispersos, meio concentrados. Você teve a visão e a ideia. Tem jogo, pai. E é do São Paulo. Vamos ver? Nunca me contaram direito, eu não perguntei – histórias dolorosas me deixam aturdido – mas meu avô Hilton começou sua trajetória trágica justo num campo de futebol. Passou mal durante um jogo do Santa Cruz, o tricolor pernambucano, no Estádio do Arruda. No filme que guardei na gaveta das dores, dali ele saiu direto para uma cama da qual nunca mais se separou. No começo ia pela rua com extrema dificuldade, apoiando-se nos muros desbotados, num esforço tremendo mais para dizer que caminhava do que para conseguir verdadeiramente caminhar. Foi perdendo os movimentos. Poucas palavras, quase nenhum gesto, um choro descomedido, por tudo e por nada. Eu só via o seu bisavô na horizontal. Ele era uma paisagem. Até que um dia, filho, acabou: meus olhos viram o não-horizonte pela primeira vez. Tinha medo dos estádios. Fui umas vezes com meu pai, mas sempre temia que o jogo terminasse antes do tempo. Não para mim, para os que me cercam, como foi com seu bisavô. Tive esse medo com meu pai. No sábado, ao entrar na fila para comprar os ingressos, tive medo. Chovia forte, raios estrondosos, granizo vindo do céu chumbo. Você e eu compramos capas de chuva. Tive medo de entrar no estádio, dos refletores apagarem, de não ver mais o gramado, horizonte único por ali. Tive medo do desconhecido, da história não narrada sobre seu bisavô. Tive medo de estar suscetível a essas coisas que interrompem o jogo. Tive medo. Você pediu o celular, perguntei para quê, você disse deixa comigo, deixei. Você abriu o aplicativo de previsão do tempo. Vai parar de chover, pai. Vai ser um jogão e a gente veio. A gente conseguiu. Você consegue sempre, filho. Obrigado.

Do seu pai,

Pedro