Teresa, Irene e João,

lá venho eu, de novo, para falar de saudade. Estou longe de vocês por uns dias. É inevitável.
Austin é uma pequena cidade (se comparada a São Paulo) no Texas. Muita gente vem de outras cidades para cá – conheci um bocado delas. São estudantes, jovens profissionais, outros estão recomeçando a vida, tentando um ambiente mais pacato (ouvi isso de um deles, um senhor que virou motorista de táxi aqui para fugir do trânsito de Paris). Vim para fazer um trabalho. Um daqueles que vocês, filhos, sabem que gosto. Encontrar pessoas, conversar com elas, ouvir suas histórias. No sábado, fui ver um show de um senhorzinho chamado Willie Nelson. Num rodeio. Com os pés na lama onde os animais passam. Vocês me conhecem. Não é o terreno que ando sem tropeçar, este. Fui. Fiquei emocionado algumas vezes, em algumas músicas (especialmente uma interpretação de Georgia on my Mind, que me fez lembrar do avô da sua tia Maria Clara – me lembrem de falar sobre ele, no futuro, sobre os domingos que ele inventava; ele era um inventor de domingos). O senhorzinho, no palco, inventava notas que curam; ele é um médico. Ouvi uma moça chamada Juliana falar sobre o trabalho que vem fazendo contra a violência contra mulheres. Me emocionei muito. Não me deixem esquecer de falar sobre ela, que lapida pensamentos brutos; ela é uma escultora. Tive o prazer de conversar com um cara que faz desenhos que vocês conhecem bem: Procurando Nemo, Os Incríveis, Vida de Inseto, Monstros SA – e que agora inventou Lava, que fala do amor entre dois vulcões que atravessa milhões e milhões de anos até que se encontrem; ele é um cartógrafo. Hoje, reencontrei uma cantora amiga, Mariana, que veio apresentar um filme que inventou sobre um sanfoneiro lá da terra do seu pai. Ela é uma desbravadora. E esse sanfoneiro, Dominguinhos, é um chaveiro. Hoje, na metade da viagem, depois de tudo que já vi, ouvi e vivi, esse chaveiro abriu uma porta no meu peito. Tenho muito a contar quando voltar. Mas agora estou com uma saudade continental. Revisitei nossas vidas aqui de longe e, de novo, me dei conta de como sua mãe e vocês são responsáveis pelo que me tornei. Vocês são inventores de mim. 

Do seu pai,
Pedro

p.s.: 
Volto já, meus amores. Preparem os abraços.
p.s. 2: Tudo aqui me lembra vocês. Por isso a foto lá de cima. A foto aqui embaixo são as pessoas que falei e vocês – que preciso olhar sempre para acalmar o peito.