João,

um par de meias.
Pela primeira vez na vida, você me pediu um par de meias emprestado. No futuro, isso será mera estatística na nossa história. Mas hoje é um dado e tanto. A primeira vez que você me pediu um par de meias emprestado – e pelo celular: “pai, tudo bem, você pode falar? É que minha meia preta está molhada e hoje tem futebol na escola, posso pegar uma meia sua emprestada?”.
As relações humanas quase sempre são pautadas em subtrações. O espaço dele termina onde o espaço dela começa. O cargo dela está acima, o cargo dele está abaixo. O dinheiro dele aqui, o dinheiro dela ali. A casa dela é grande, o apartamento dele é pequeno. Vão nos colocando métricas e limites que reduzem horizontes, assuntos e gestos. Que determinam fronteiras (visíveis ou não) e tornam o senso de propriedade mais importante que o valor da existência – as pessoas por vezes querem se apropriar, como se “ter” fosse mais importante que “ser”. O ser humano se reduz. Da metade para cá é o meu espaço, da metade para lá é o seu. Assim, meio a meio. Meia a meia. Penso que as relações humanas precisam de menos aquilo, mais isto: é hora do nosso, filho. O espaço, quando verdadeiramente coletivo, divide-se. As vontades, somadas, potencializam as chances da gente chegar juntos a um lugar (bem) melhor. Matemática é emoção. Tenho aprendido que a melhor herança que poderia imaginar para você já existe. São Irene e Teresa (e a melhor para Teresa: Irene e você; e a melhor para Irene: Teresa e você). Juntos, vocês multiplicam amor (a decisão de ter mais de um filho foi impensada – e a mais acertada). Solidão é lava (obrigado, Paulinho) que cobre tudo. E quando minhas meias já não existirem mais, filho, vocês ainda terão um ao outro para dividir, multiplicar e somar.

Do seu pai,
Pedro