Filhos,

hoje refleti sobre o amor. Me peguei pensando nesse desenho que me tornei. Eu, que era um rascunho de gente até que ela voltasse a ser parte de mim. Eu, que vivia para mim e tão só para mim e nunca fui bom o suficiente comigo mesmo para querer estar com alguém tão intensamente a ponto de não ser somente "com", mas sobretudo "em" alguém. Estou na sua mãe, coração, corpo, mente, alma. Estou nela a cada segundo dos nossos dias. Eu, que nunca tive noção de tempo e cheguei a pensar que viver era tanto. Agora tenho pressa, tenho urgência dela. Estou nela em sentimentos que jamais soube que existiam e sequer nome têm; talvez tenham nomes em latim como plantas raras que tudo curam – e que poucos encontram nas densas florestas do cotidiano da nossa existência. Eu, tão desorientado desde sempre, ando sem bússola no meio dessa mata, exímio conhecedor que me tornei desde que entendi que minha existência havia se tornado uma coexistência. Sem ela, inexisto. Com ela, respiro. Reflito, filhos. Como é fascinante essa sorte que tenho de estar tão perto de mim mesmo, toda a vida.

Do seu pai,
Pedro