Filhos,

[foto: Pablo Bertola]

[foto: Pablo Bertola]

felicidade não dá em lata, caixa, vidrinho, sacola, num pote qualquer. Felicidade se planta com as mãos: cava-se na areia, coloca-se a semente, cobre-se, rega-se, observa-se até que os olhos provem: é fruta que nasce em pé; sonhar não funciona, tem que ter coragem e vontade para ser feliz, levantar e trabalhar. Dá trabalho. Se colhida antes, o resultado é amargura, como se a gente estivesse verde para ela. Se deixada para depois, pode cair e nos machucar. Plantemos. Ou: filhos, quando a gente chega numa estação de trem, prontinho para embarcar, carrega uma bagagem. Lá tem tudo que a gente precisa para a viagem. Mas observem: na volta, a bagagem é outra. Mais pesada? Talvez. Mais leve? Deus tomara. Que as nossas voltas sejam assim. Carregar menos peso faz bem para a alma e para a coluna – que no fundo são a mesma coisa, nos mantêm a caminhar, cabeça erguida. Caminhemos. Ou: filhos, uma estrada pode servir para nos levar longe. A trazer alguém que amamos para perto. Pode nos fazer chegar ao desconhecido, nos conduzir ao cheiro inesquecível, nos guiar por onde os olhos nunca imaginaram passear. Estrada pode servir para a gente parar. E, quem sabe, mudar de caminho. Mudemos. Ou: João, você deu uma cabeçada na janela, abriu um pouco a sobrancelha e talvez lembre disso para sempre. Ou: Irene, você descobriu com Téo que amizade não nasce da noite para o dia e talvez lembre disso para sempre. Ou: Teresa, você descobriu que dormir na rede é o maior conforto que inventaram e talvez lembre disso para sempre. Nesses últimos seis dias aqui em Barbacena, filhos, fomos tão felizes. Talvez a gente lembre disso para sempre. Ou: Lua, que família boa a gente escolheu para plantar, caminhar, mudar. Agora vamos pegar a estrada, é hora.

Do seu pai,
Pedro.