Irene,

o setor das arquibancadas reservado para os que acreditam está quase vazio. O cheiro de mijo nos corredores anuncia os fantasmas do passado que habitam o lugar. As bandeiras, deitadas, estão rotas – o luto dos panos, como a colcha do casal que não se encontra mais às quartas, depois da novela. As camisas já não nos vestem – servem a propósitos outros, despropositados. Depois de tanto tempo sendo sábado ensolarado, o futebol brasileiro virou um domingo de chuva. Desinventaram o amor, filha. Fora do campo, homens de preto roubam o dinheiro. Dentro do campo, homens de amarelo furtam a memória. É muito triste para quem já viu o verdadeiro amor de perto e lembra bem. O amor rouco das gerais. O amor do choro prorrogado. O amor das faltas duras. O amor dos cartões não dados. O amor que dribla os mais duros adversários. Desinventaram o amor e agora temos que reinventar, filha. Me ajuda. Faz essa mágica.

Do seu pai,
Pedro.