Marta,

família é um campinho de várzea. Não tem grama verde para se gabar. Rede, quando não tem grandes furos, é luxo. A marcação de cal some, cabelos brancos surgem. As traves, meio capengas, permanecem de pé mais por crença do que por engenharia. A gente cobra escanteio, corre para cabecear, espera rebote, ataca e defende. Não tem banco de reservas, todo mundo é titular e joga todos os tempos, ainda que se prorrogue algum sofrimento, ainda que haja pênaltis para os de coração forte. Nesse campinho que dorme cedo por não ter refletor, a gente joga aberto. Joga limpo. Joga duro, quando necessário, mas essa não é a regra. O fundamental é que a gente joga junto. E num campinho assim, simples, feito a casa muito engraçada de Vinícius, um campinho familiar, a seleção precisa estar muito entrosada. E está. Veja essa da foto: é a centroavante, Teresa, a caçula na escada-arquibancada. Joga no ataque, que é uma maneira de garantir seu espaço no time que, quando ela chegou, já tinha dois titulares: João na defesa, zagueiro que não machuca adversário, e Irene, filha do meio que domina o meio-campo da casa inteira. Nesse time ainda há uma capitã, líder insubstituível, craque na difícil arte de manter o espírito de equipe mesmo quando estamos em algum jogo perdido, levando uma goleada. Lua, esposa e mãe. Estaria contente só de vê-los jogar, mas fui convocado para ser pai. Um lateral pesado, meio fora de forma, sem pique, mas que entendeu o seu papel. E aqui estou, me preparando para vê-la entrar em campo daqui a pouco, na Copa do Mundo Feminina, no Canadá. Torcendo para que o seu exemplo seja o exemplo a ser seguido pela minha família, principalmente pelas minhas duas filhas. Que os ídolos delas sejam ídolas, feito você. Mulheres raras, únicas, que vencem na vida. Bom jogo, Marta. #jogaparaelas

 

Do seu fã,

Pedro.