João, Irene e Teresa,

lugar somos nós. Não há espaço territorial que faça sentido se lá não estivermos. Levamos os lugares para fincarmos as raízes do pensar. Vejam: o mar, sem nós, é deserto. Seja sem a nossa imaginação, seja sem a nossa presença (estar presente também é imaginar-se, não acham?).  O menino que nunca viu o mar – pense nele, um menino apenas de bermuda e chinelo, pronto para conhecer o mar. Enquanto ele está na estrada, neste eterno momento que antecede a sua chegada e que é exatamente o seu trânsito, caminho, percurso, o mar não existe, está apenas nele (na sua imaginação). Imagina-se o mar de diversas formas – e este menino, em trânsito, o vê, ao fechar os olhos, de uma forma impossível de ser compartilhada com nós aqui, que apenas o acompanhamos na jornada. Ao pisar na areia e levantar a cabeça diante do horizonte, o menino faz existir o mar (com a sua presença). Lá está o mar do menino. Nele. As águas são agitadas – e o menino havia pensado que fossem calmas, o coração espuma. Há mais sal do que as papilas pudessem supor, e o menino beija seu próprio lábio para saber. A areia molhada no corpo faz o menino sentir calafrios em partes do corpo que não costuma lembrar que existem. Sabe, filhos, dia desses eu fui, de chinelo e bermuda, a convite do Beach Park, dar início a um trabalho lindo para os 30 anos do parque. Um monte de gente incrível, junta, trabalhando por este portal mágico que é aberto todos os dias para fazer os olhos de meninos (outros) brilharem diante de tanta felicidade em estado líquido. Foram alguns dias. Passou o meu aniversário (com amigos de uma vida inteira). Vocês foram para Brasília, depois Recife. Eu fiquei abraçado com o trabalho e com a saudade. E também com pessoas novas que foram aparecendo e enriquecendo o meu pensamento de menino que está na estrada na direção do mar. Que lugar é este que vou inventar e me fazer presente? Foram muitas descobertas. Meu lugar, este aqui, é o mar agitado de hoje em Fortaleza (lugar de despedir-se). Meu lugar, este aqui, é o concreto monótono de São Paulo (lugar de chegar). Meu lugar, este aqui, é o lugar para onde irei no próximo post. Quem sabe eu vou para este lugar, que sou eu – e onde me imagino e estou presente. Venham, filhos. Estou em São Paulo esperando por vocês, esperando para a gente conhecer um lugar novo na gente. Venham.

Ah. Só mais uma coisa para a gente lembrar, filhos: o mar, criatura do menino, estica as ondas para tentar puxá-lo para a dança. O menino, criador do mar, pula as ondas e despede-se; e talvez queira inventar montanhas.

Do seu pai,
Pedro.