São Paulo,

muito obrigado. Você foi maravilhosa comigo, em cada um dos meus dias aqui. Trouxe amigos novos que sequer esperava, me fez caminhar profissionalmente, abriu minha cabeça a cada nova exposição nas suas tantas galerias e museus, me apresentou à fotografia, descortinou as melhores peças e shows, serviu – à mesa, com presteza – sabores inesquecíveis, tirou o carro da minha vida durante a semana e me apresentou às calçadas. Tantas coisas que teria que te agradecer, desse cotidiano tão intenso que só você tem, no Brasil – mas há algo muito mais importante. Você recebeu de braços abertos meus três filhos, São Paulo. São três paulistaninhos atípicos. Carregam dois ou três sotaques distintos numa mesma frase: colocam o “r” carregado no lugar errado, falam oxe e quando vão à padoca pedem tapioca. Obrigado por tê-los acolhido como filhos teus. Mas agora é hora de partir e, sim, esta é uma carta de despedida. Vou para uma vida mais pacata. Vou ter (ainda) menos pressa. Vou consumir (muito) menos. Vou aprender a plantar, cuidar da saúde, beber água decente, voltar a andar de cavalo (quem diria?), estudar música, ler mais, experimentar o silêncio, desligar o celular de vez em quando sem ter medo de perder algo. Vou ficar perto do teatro, da música, da palavra. Estou indo para o interior de Minas Gerais (sempre soube que esse amor iria acabar nisso), para Barbacena, aquela cidade-antítese ao teu conceito de cidade, São Paulo. Vou frear o mundo, contemplar mais e ter menos certezas e verdades. Vou – incessantemente – buscar as felicidades dos meus filhos através de menos necessidades (porque quanto mais se precisa de coisas, menos temos tempo de ser gente). Obrigado, São Paulo, muito obrigado. Mas agora estou indo embora de ti. Estou indo reencontrar comigo. Vamos, filhos? Está na hora da gente ser um novo lugar.

Do seu pai,

Pedro.