João,

ainda estamos sem casa na nossa nova cidade. Sem teto e sem chão. É uma questão. Mas basta você ir ao cinema, voltar e temos a resposta. Você foi assistir Divertidamente com sua mãe, me esperou voltar para casa à noite para contar sobre o filme. E no momento em que diz “tem uma hora, pai, que a menina chega na cidade nova, acho que é São Francisco, é São Francisco?, é, São Franciso, mas não tem onde ficar, não tem cama, nada, dorme num colchão, no chão”, você me olha, espera uma reação minha. Reação que vem. Fico concentrado, fico emocionado e penso que você começa a compreender as mais complexas formas da gente entender o que está ao nosso redor, como transformar em sentimento e, por fim, como agir diante disso. Fico em silêncio porque não há nada a ser dito. Minha reação é não reagir, esperar que a história continue. Você continua. Você entendeu. Nem sempre temos teto. Nem sempre temos chão. Mas assim, juntos, onde quer que seja, temos o que fica entre os dois. Entre o teto e o chão estamos nós. E isso já é a nossa casa. Você não me conta o final do filme, não pergunto. É feliz.

 

Do seu pai,

Pedro.