Filhos,

de tanto fazer e desfazer malas nos últimos quarenta e cinco dias, bateu um banzo em mim. Uma vontade de parar, aquietar, acomodar. Praticar o tão importante exercício da permanência – explorar o que este lugar em que nos encontramos (agora) tem de melhor. Contemplar mais. Frear a ânsia. Olhar menos para o futuro, buscar menos, ter aquela dose prudente de conformismo que nos deixa tranquilos em relação ao estado em que as coisas estão. Se estão, é porque deveriam estar.
Filhos, se um dia vocês lerem um texto como esse parágrafo acima, e se o atribuírem a mim, saibam: não fui eu que o escrevi. Isso, acima, é o que pregam as vozes da manutenção, da permanência, do conformismo cego e, principalmente, da dissimulação. Gente que finge ser gente. Estamos aqui por pouco tempo, João. Passa rápido demais, Irene. Não dá tempo de fingir, Teresa. Precisamos ser. Assumir o que somos. Ser verdadeiros diante das nossas escolhas, por mais duro que seja, por vezes. Fiéis ao princípio de não ser fiel a nada, porque fidelidade não é medida de afeto, mas de prisão. Pois refaço o que está escrito acima. E, agora sim, sou eu que os escrevo.
De tanto fazer e desfazer malas, fui aprendendo com vocês, pelo caminho, que à medida que confrontamos esse outro pensamento que acomoda, nos tornamos mais fortes, apesar de mais leves. Nos tornamos mais certos do que queremos, apesar de termos sempre mais perguntas do que respostas. Nos tornamos mais nós cinco – apesar de nos sentir cercados por cada vez mais amigos queridos. De tanto fazer e desfazer malas nos últimos quarenta e cinco dias, estou com vontade de fazer isso muito mais, com e por vocês. É com os pés no mundo que a gente aprende a colocar o coração nos olhos. É com as asas abertas e disponíveis que alcançamos os melhores ventos. É na pressa que vive uma revolução. Amor sem urgência é planta sem sol. Vamos lá fora, filhos. Vamos lá fora de novo e de novo e de novo e quantas vezes forem necessárias para que saibamos: isso aqui passa rápido demais para a gente permanecer.

Do seu pai,

Pedro.