Irene,

sabia que o mundo gira em torno do Sol? Funciona assim: o Sol, todo poderoso, tem uma energia tão forte, tão forte, que atrai os outros astros que estão por perto (perto é jeito de dizer – tem planeta que está a 5 bilhões de quilômetros dele; e isso é mais longe que ir de Barbacena a São Paulo de carro). Assim, começa um balé galáctico, uma dança estelar, com uma música de silêncio fazendo planetas bailarem numa pista de dança gigante. Mas não para por aí, filha. Ao mesmo tempo em que a Terra dá voltas e voltas em torno do Sol, faz um outro movimento. Gira em torno do seu próprio corpo. Um rodopio moroso, suave. Como se o planeta tivesse cócegas do vento cósmico e fosse entortando o corpo para esquivar-se do dia – até que chega a noite. Esse é o ciclo fabuloso que nos faz ver a tarde cair, o dia raiar, as estrelas luzirem, o galo cantar. Que nos faz precisar tanto de um pijama – para as noites – quanto de um biquíni – para os dias. Ou um biquíni, se a noite for na praia. E um pijama, se o dia for no campo. A gente vive para girar, filha. Em torno da nossa própria alma, sensível às cócegas do amor. Em torno daqueles grandes astros que nos cercam, amigos. Quando eu canto baixinho, para você dormir, aquela canção que diz “todo dia o sol levanta e a gente canta o sol de todo dia/fim da tarde a Terra cora e a gente chora porque finda a tarde/quando a noite a lua mansa e a gente dança venerando a noite” é um jeito de te contar quase no mesmo silêncio sem gravidade, que dias e noites existem porque a gente flutua, gira, orbita em torno do amor. E sente cócegas por isso.


Do seu pai,
Pedro.