Teresa, Irene e João,

para que serve a coragem, essa coceira que bate no miolo da vontade? Coragem serve para aceitar um convite. Serve para fazer as pazes com quem, por algum motivo menor, nos distanciamos. Serve para entregar o bilhete aéreo e deixar para trás um amor, aos prantos, no saguão do aeroporto. Serve para queimar os dedos no azeite quente ao colocar as cebolas para dourar. Serve para trabalhar com algo que nunca se trabalhou antes. Serve para carregar uma bandeira. Serve para o nosso exercício político diário, serve à ética. Serve para sentar no Estelita e dizer daqui não saio, daqui ninguém me tira. Serve para o diálogo. Coragem serve para banhos: de chuva, de cachoeira, de mar, de rio. Ela está lá no instante em que dizemos sim ao novo. E quando estamos abertos ao novo, ele entra sem bater. O novo, quando é de casa, chega no meio da noite, na hora do almoço, logo cedo, em pleno final de semana. O novo, se for bem recebido uma vez, volta. Ele voltou. Chegamos em Barbacena no dia 2 de agosto de 2015 com duas certezas: que ficaríamos aqui pelo menos um ano; que nada poderia nos fazer mudar daqui antes disso. O novo, filhos, é o maior inimigo das nossas certezas. Daqui a uma semana, no dia 26 de fevereiro de 2016, pegamos a estrada para nossa nova casa, nosso novo destino, mais uma etapa do nosso percurso de vida. Sabíamos que, ao sair de São Paulo, havíamos começado um caminho sem volta, o caminho do desapego, algo entre o nomadismo e o inconformismo. Aqui está ele. O novo. De novo. Vamos sentir falta de algumas coisas em Barbacena. Vamos sentir muita falta de alguns amigos. Muita falta mesmo. Gente que veio para reforçar nossa hipótese sobre as melhores relações: aquelas que têm o amor como norte. Nosso norte, agora, aponta para o centro-oeste. Brasília, aí vamos nós. Vamos nessa, filhos. Apertem os cintos. O amor é mesmo uma bússola quebrada. Que sempre indica um caminho desconhecido, mas com a paisagem mais surpreendente.

Do seu pai,

P.