Irene,

daqui a pouco a sua irmã vai chegar. Não sabemos nada sobre ela. Nada. Esse mistério me parece a parte mais desafiadora de construir uma família. O desconhecido rumo que iremos tomar depois da chegada de um personagem novo na história. Ela pode trazer o silêncio. A calmaria. O passo leve que mal toca a madeira meio solta do nosso chão. Sua respiração pode ser aquele sopro delicado da existência, inaudível, compassado. Pode trazer nos ombros a leveza de quem voa, menina-borboleta, menina-passarinho, menina-pólen. Quem sabe não irá ser daquelas que dormem a noite inteira. Daquelas que permanecem no colo, depois do abraço. Que fazem companhia à mesa, até muito tempo depois da sobremesa. E ela poderá trazer o barulho. O caos, a bagunça. Pode ser daquelas que corre a casa inteira, não para quieta, pula do sofá para o tapete. Sua respiração, ofegante, pode ser aquela inquietude linda, o inconformismo constante dos que creem no que não veem e seguem adiante, olhos fechados, mente aberta. Pode trazer os pés fincados nessa estrada de terra sem placa de atalho, que é a nossa existência. Pode ser daquelas que comem apressadamente – louca para sair, passear, ver o mundo e, por ele, ser vista. Menina-relâmpago. Quem sabe dormirá pouco, terá um abajur sempre aceso ao seu lado. Pulará na nossa cama, rapidinho, para um beijo coletivo, um te-amo-família, um abraço de vou-ali-volto-já. Daqui a pouco, filha, sua irmã vai chegar.
E nada mais importa a não ser isso: quando ela chegar,
vocês serão três, para se ajudar em cada passo desse desconhecido rumo que iremos tomar.


Do seu pai,
Pedro.