Teresa, Irene e João,

para chegar na China não é preciso cavar um buraco no chão. Fica do outro lado do mundo, sim. Mas não do lado de dentro. Fui lá, do outro lado do mundo, recolher os cacos que tinha por dentro de mim. Escavei o peito para encontrar um tanto de estilhaços, filhos. Distante de vocês, muito distante, tão perto de um cara que fui – e que fui, aos poucos, perdendo. De pouco em pouco, a gente transforma em memória o que era matéria. Menos etéreo, vamos lá, eu consigo.

Fui lá para Pequim, aquele trabalho que contei para vocês. Fui com Oli, Amaury, Naná, Isa, Henrique, as Djus, Pagu, Let, Edson, Mau e Guto. Um trabalho lindo de cada um deles, que fui acompanhar e transformar em meu trabalho – que agora sou assim, escolho os trabalhos que faço pelas pessoas que estão nele comigo. Mas lá, amores, mesmo com um turbilhão de vivências, uma agenda insana, tive tempo de esbarrar com uns valores e vontades e verdades que tinha deixado na gaveta ao lado da cama.

Vocês sabem. Não sou escritor. Mas escrevo. Não sou fotógrafo. Mas adoro fotografar. Não sou músico. Mas amo tocar. Essas três coisas regeram meu caminho até aqui. Foi através delas que descobri o melhor que tenho. Foi com elas que estabeleci laços, vínculos eternos, com amigos que são irmãos. Voltei da China disposto a retomar essas três coisas com mais afinco. Mais estudo. Mais amor. Menos foco, menos afinação, menos entrelinhas. Foto, música e escrita a serviço de um bem maior. A nossa diversão, filhos.
Vamos juntos? A viagem vai começar. Cavem, cavem, cavem. Vamos para o lado de dentro do nosso mundo.

 

Do seu pai,

Pedro

 

 

P.S.: o trabalho que deveria começar intensamente na China, com uma plataforma que criei para acompanhar os trabalhos dos artistas curados por Oli, do Coletivo Amor de Madre, chama-se When Are You? – sim, ‘when’.  Uma questão que precisamos levar com a gente, filhos. Essa certeza de que ocupar o mesmo espaço no tempo, viver justo aqui, no agora, não é uma coincidência, mas um presente que nos foi dado. Quando estava na China, a pergunta importante era justamente essa. Separados por 11 horas de fuso horário, tudo o que eu queria saber era como vocês estavam, no passado, enquanto eu desfrutava de um futuro próximo que vocês ainda iriam viver. Essa plataforma teve complicações na sua implementação: na China, alguns sites são proibidos de funcionar. Com isso, tive que mudar tudo às pressas para que tudo andasse minimamente. Enfim, funcionou. E agora vai começar a andar com suas próprias pernas, aqui do Brasil (por enquanto). Chamem seus amigos, filhos. Peçam para eles mandarem fotos com a #whenareyou e encontrar com a gente num tempo que não será amanhã. Nem ontem.

P.S. 2: estão vendo aquele senhor na foto, lá em cima? É o Futuro. Não tentem se aproximar. Se caminhamos dez passos, ele se afasta dez passos (desculpe, Galeano). Mas se ficarmos aqui, no agora, vivendo esse momento muito bem, ele estará sempre ali, visível. 

João,

a sua frase foi: "eu nunca vou ficar longe, pai".

Essa semana, filho, você vai para Recife com sua mãe e suas irmãs. Vai encontrar com seu amigo Joaquim. Vai pegar onda com Cris. Vai passear com sua avó. Visitar seu bivô. Encontrar com sua bisa, com Carol, com Jó. Provavelmente, vai se esbaldar na sorveteria do vovô Vanvan. Vai matar a saudade de Pio (que saudade, meu amigo). Tempos bons, filho. Aproveite cada segundo. 

Essa semana, filho, vou para Pequim com pessoas incríveis, que tanto admiro. Vai ser uma experiência e tanto. Olivia, a mentora desse trabalho, me convidou e convite de Olivia eu aceito de olhos fechados. Na China, eles têm os olhos meio assim, fechados. Vou estar de olhos abertos para o mundo lá do outro lado deste mundo.

Olha aqui, filho.

Vou estar no futuro. São onze horas de distância – chama-se fuso horário. Ou seja: quando eu sentir saudade no café da manhã, amanhã, você estará jantando, ontem. Estaremos separados pelo muro intransponível  da saudade e do tempo. Longe nunca foi tão distante, filho. E a isso serve a saudade: para deixar o presente invisível.

Mas há um alento. O meu coração, o tempo inteiro, vai bater dentro do seu. Preste atenção, você poderá me ouvir sempre que silenciar um pouco. Sei que você estará ocupado demais em se divertir, mas na hora de dormir, talvez, me escute; na hora de dormir, ouça, sou eu: tum-tum, tum-tum. Direi que estou tão perto, mesmo que não pareça. O fuso cria o descompasso e me coloca fora de hora, desalinhando os relógios sem ponteiros – porque saudade, quando desponta, nos aponta para o vazio. Desaponta. Ponto. Mas por dentro, ouça, sou eu.

Eu nunca vou ficar longe, filho. 

Do seu pai, 
Pedro

Irene e Teresa,

[arte maravilhosa de Renata Miwa sobre uma foto que fiz do seu irmão em junho de 2014]

[arte maravilhosa de Renata Miwa sobre uma foto que fiz do seu irmão em junho de 2014]

olhem para João. Mas olhem sem pressa, porque à primeira vista ele nos engana. Parece não prestar atenção. Parece, por vezes, nem estar ali – diante dos olhos da gente. Parece pensar em todas as outras coisas, menos na que deveria (ou pensamos que ele deveria). João pensa por dois. Ou três. Na maior parte das vezes, aliás, pensa por cinco. Pensa pela casa inteira. João é raiz e – como bem dizia o doutor Zé Armando – pensa muito. Seu irmão conserva os pensamentos em desordem e os rompantes de quereres em dia (isso quem diz sou eu). Sim: exercita o pensar, o tempo inteiro. Sim: age impulsivamente, porque odeia perder tempo. Se João não fosse João, seria eu. Daí, filhas, vem uma coisa que um dia irão perceber, talvez hoje, ao ler isso aqui. Faz tempo que ele e eu nos encontramos. João e eu temos muito tempo, muitas vidas. No dia que João nasceu, nasci também – mas nos conhecemos há mais tempo que essa vida.
Deixei para trás, com a chegada dele, um Pedro mais egoísta, rancoroso, autossuficiente. João é a minha maior lição de vida como homem, como pai, como marido, como amigo.

[É duríssimo falar dele, meninas. Perdoem. Nesse exato instante, faço uma pausa para respirar, para estancar o choro, e aproveito para contar-lhes: ouço Lamento Sertanejo, cantado por Gilberto Gil. Se puderem, ouçam a mesma canção. Tem a ver com se desgarrar do que o mundo fez da gente para ser o que devemos, o que verdadeiramente sempre fomos – ou deveríamos ser. Tem a ver com as descobertas que fiz com esse menino que vocês têm como irmão.]

João é uma paisagem humana que se assemelha, aos meus olhos, ao encontro do sertão com o cerrado. Ainda que ele próprio sequer tenha visto de perto esse encontro até o dia de hoje, acreditem: esse lugar é um espelho dele. Lugar de gente que, da terra seca, tira o milagre. Planta, colhe e distribui. Gente que crê na providência humana tanto quanto na divina e, por crer, faz com que tudo exista, queira Deus ou não. São reis brincantes, velhos de pastoril, príncipes sem castelo. A imaginação fértil planta; a vontade de meter as mãos pelos pés faz a colheita e a dança coincidirem nos calendários. João é ar, mas é terra. É água, mas é fogo. Amor é fogo. Amor é mar. Ele sabe. O amor dele por vocês é fogo que escorre dos olhos – água inflamável. O abraço de João em vocês é uma casa que recebe brisa, bem no meio do sertão (e do cerrado). O cuidado que ele tem com aquilo que ama é um tesouro que já vem com mapa, para ser descoberto. Aproveitem, filhas. O melhor irmão que poderia existir já existe. Está bem aí do lado de vocês. Foi o primeiro a chegar – tão generoso que é, não queria deixá-las esperando. Esperem. Falta só mais uma coisa. Olhem de novo para o seu irmão. À primeira vista ele nos engana. Olhem, porque ele é ainda melhor que qualquer coisa que eu possa dizer. Possa pensar. Possa imaginar.

 

Do seu pai,

Pedro.

João e Irene,

olhem para Teresa. Nem sabe falar. Para engatinhar, ainda precisa dar mais uns passos. Aparentemente, entende pouco daquilo que se passa à sua volta. Mas ela diz sim. Com um aceno de cabeça, ao ser perguntada, diz sim. Entendeu o sim. Sabe do sim. Anda dizendo sim por aí. Quer melancia? Balança a cabeça e projeta o corpo. Vem para o papai? Balança a cabeça e quase salta. Quer brincar no tapete? Balança a cabeça e sorri. Cada vez que Teresa sorri, projeta o corpo, quase salta, minha crença no seu futuro aumenta. Dizer sim é uma arte – e nesse mundo maluco, oposto a isso, é uma dádiva. Nesse mundo maluco, da negação, balançar a cabeça, sim, é um sinal de que vai dar tudo certo. Balançar a cabeça, um sinal do corpo pela vontade. O corpo, as vontades, tudo entrelaçado – como deve ser. Simples, sim, muito simples. O sim nos leva mais longe. O sim nos aproxima. O sim desenha um caminho mágico de descobertas que nos engrandece, nos faz melhores, nos permite, nos ensina, nos traz, nos leva, nos faz, nos projeta. Sim, filhos, olhem para a sua irmã. Sim, acreditem no que ela os ensina, desde já. Sim, projetem o corpo, dancem, saltem. Esqueçam o talvez. Por um triz, ele poderia ter sido mais feliz – poderia ter nascido um sim. Sim, filhos, olhem no espelho que é a sua irmã. Digam sim ao amor que alimenta, fiquem fortes, sorridentes, tenham a coragem de saltar abismos, porque do outro lado sempre haverá um abraço para quem diz assim: sim.

Do seu pai,
Pedro

Teresa e João,

olhem para Irene. Ela se diverte. Veio para isso. Papai, papel – pediu. Começa a desenhar, um passarinho azul, parece o mascote do Twitter. Irene é um tweet. Resolve, em 140 caracteres, o que for preciso. Não perde tempo, porque tempo é para se divertir. Quem gasta tempo sem diversão entra no Facebook e opina. Opina sobre futebol, religião, política, morte, vida, cabelo, pé, amor, paixão. Quem tem tempo e uma senha gratuita, gasta com Facebook. Irene, não. Um tweet. @IreneBFonseca diz: quando me divirto, resolvo. Resolve os problemas dela e os nossos. Bom dia, filha. Adia, papai. O bom dia no dialeto dela é um pedido para que tudo fique para depois, exceto ela, que está sempre a postos para se divertir agora mesmo e provocar interrupções bruscas nos assuntos.

 

– Vamos tomar café da manhã, fi (interrompe).

– Papai, dança, dança, papai.

 

E começamos a dançar enquanto ainda busco uma música. Dançamos sem música. A música está na cabeça, filhos. Num rompante de busca por algo que não perdi (a música nos protege, disse Amaury, dentro da sua guarita musical que toca alguma música para nos dar mais segurança; música é nossa segurança, também disse Amaury; Amaury disse tudo que queria ouvir: música). Larguei o celular ao lado do fogão tocando, alto, À Palo Seco, enquanto passava manteiga no pão e começava a dançar com sua irmã. Desesperadamente, gritou em português Belchior: sei que assim falando pensas que esse desespero é moda em 76. Eu tinha um ano e o desespero era moda. Irene tem dois anos. Irene não se desespera com nada. Dança. O desespero tem medo de quem dança. Venham, filhos, venham com a sua irmã dançarina. Mexam os braços, as pernas, subam na mesa, dane-se. O desespero tem um medo danado, tem um medo que se pela de quem amanhece com música alta e dança. Num tweet, ela dança, pede melão, pão com presunto, beija você (João), beija você (Teresa), beija sua mãe, beija Ju, beija eu, beija eu, beija eu, me beija, deixa o que seja ser – Marisa assume. Beija o mundo desesperadamente, porque felicidade é um desespero que nada teme. Felicidade é um botão de shuffle bem no meio da vida. Nem Alucinação, Belchior, é mais feliz. Boa noite, Xangô. O Rappa desafia o tempo (ainda é cedo, Falcão, bom dia), começa a tocar a nova música e ela ainda dança a anterior. Anjo de Iemanjá, um barco cheio de flor, essa menina.

Do seu pai,

Pedro


João,

parece que foi ontem. A descoberta do jambo. Carnaval. Picolé. Eric Clapton. Uma varanda bem à porta, sem teto, onde era possível ver o ipê amarelo abençoar a casa inteira. A mamadeira-trompete. Banheira meio cheia –otimista que só ela, nem conhecia a Cantareira. O olhar apaixonado para uma mãe que só tinha olhos para você. Avô do boneco. Avô da careca. Avó de Brasília. Avó de Recife. E ainda outro avô, do surf. Um amigo para toda a vida –descoberto tão cedo que as palavras nem existiam entre vocês. A escola da vida, a vida na escola. Granizo, sol, chuva, mar, montanha, tudo junto, ao mesmo tempo, em um só dia. O sotaque que não é nosso, nem de ninguém. É seu. As palavras, ao encontrá-lo, ergueram uma cidade com arranha-céus fazendo cócegas no seu próprio céu da boca. O menino que trocava ideias. Troca, ainda. Troca sem dor. Não se importa: é minha, sua? Tanto faz. É nossa. Você é dos nossos. É dos meus. Dos meus sonhos remotos, tão distantes, de uma capa de revista que eu pensava vê-lo, mas não: você veio tão melhor, tão acima de quaisquer expectativas. Ah, as expectativas. O guru mira o fundo dos meus olhos e diz que não vem de hoje, nossa relação. Eu sei. Sempre soube. Lá vem você, me ensinando mais sobre mim mesmo que qualquer pessoa. Quantas noites eu chorei, filho, silenciosamente, com você no colo? Minhas dores de crescimento, meus medos, minhas vontades. Aí vinha você para os meus braços. Quantas noites eu contei segredos que nem eram meus, nem seus –segredos imaginados pelo seu pai, que jamais acreditou em ficção. A ficção não existe (coitado de você, que vai ouvir isso uma vida inteira). Aliás: vai dar tudo certo (vai ouvir isso também, o tempo inteiro –talvez até possa ler essa frase como um mantra tatuado nas suas lembranças). Meu amor, minhas certezas, minha vontade de realizar apenas para você. Ao centro do meu universo, pequeno e infinito, olhando para mim com meus próprios olhos. O filho-espelho. Parece que foi ontem. Foi há seis anos. Seis anos. Como eu cresci rápido, João. Obrigado. E parabéns, filho. Pelo seu dia, pelo que você é, pelo que você será.

 

Te amo –mais que tudo nesse mundo.

 

Do seu pai,

Pedro.

Teresa, Irene e João,

todo rio tem uma nascente. Visto lá de cima, quando voamos, e por maior que seja, ainda assim, passa desapercebido pelos mais atentos olhos. Mesmo o Amazonas, aquele mundo, começa em gotas de degelo. Não se deixem enganar: há sempre um princípio para um grande rio. Um fio estreito. Nascente, onde mora Manoel de Barros, espécie de passarinho que canta poema. Onde, quase sempre, há um pôr-do-sol para se dizer silêncios profundos a quem senta ao lado. Quando se caminha muito, e se perde, tudo que a cabeça pensa é em nascente, para beber esperança e pontos cardeais. A gente se perde tanto –e se encontra sempre nela, na nascente. Haja nascente pelo mundo para nos ligar –a nós mesmos. Cada nascente, ainda que modesta, que se veja miúda, guarda o segredo enorme do que se abastece sozinho, dos outros, de tudo, até tornar-se finalmente navegável, mergulhável, nadável, admirável. Amor. Amor é um rio, filhos. Nasce ali, quietinho, ao som de poemas cantados ou ao silêncio do sol que não volta mais (hoje). De mãos dadas, em caminhadas onde nos perdemos e nos encontramos e nos permitimos manter a esperança viva num ponto do peito perto de um ponto cardeal. Amor é um fio, filhos. Nos liga estreitamente, faz festa no peito com direito ao coreto da praça todo iluminado, com bandinha tocando em cima. Desde que cada um de vocês chegou, minha vida renasce na mesma nascente. Onde o amor começa, onde somos pequenos, miúdos, mas logo nos tornamos amazônicos. Obrigado pelo Dia dos Pais de hoje. Obrigado pelos seus olhos atentos (e pelos meus).


Do seu pai,

Pedro.

Irene,

se eu pudesse imaginar uma filha, ela seria –antes de mais nada– destemida. Cada vez que a porta do nosso pequeno e confortável universo familiar abrisse, ela teria a coragem de encarar o mundo lá fora, de frente. Vestida com as roupas e as armas do protetor que enfrenta dragões. Com ou sem lanças, seria ela a cuspir fogo no dragão, coitado. Pudesse traçar um caminho para essa filha, escolheria o atalho sem asfalto. Percursos fáceis, poucos calos. Minha filha refutaria a ideia de ter pés de cinderela que esperam um sapato que se perdeu na noite anterior. Segue a vida, segue em frente, segue o rumo –pensaria ela. Filha, essa da imaginação, teria prumo o suficiente para cometer apenas as grandes loucuras –as pequenas só dão dor de cabeça e dor de barriga. Seria engraçada, porque a Terra já é muito chata além dos pólos. Seria agregadora, um ímã. Olharia no fundo dos olhos. Dançaria em lugares públicos. Abraçaria forte, intensamente, os que a amassem. Ninguém deveria abraçar sem amor (é injusto com o amor, é injusto com o gesto de envolver alguém com as mãos, e braços, no colo). Dividiria o espaço com mais um, mais dois, mais quantos fossem necessários. Seria quase sempre a primeira a despertar –e acordaria também os que estivessem por perto, logo cedo, porque o dia passa tão rápido. Lembraria do nome das pessoas. Lembraria de nomes e rostos e lugares. Cheiros e sabores. Olharia no fundo dos olhos (eu sei, devo ter dito isso em algum lugar aqui, antes, mas isso para essa filha seria importante –assim, repito). Se eu pudesse imaginar uma filha, se essa filha pudesse existir diante de tantas exigências da minha imaginação, ainda assim, ela não chegaria aos seus pés. Você, filha, é a maior surpresa que o Universo –o grande, não o nosso, pequeno e confortável– poderia me trazer. E há dois, ele trouxe. Parabéns, Irene. São dois anos de um amor inimaginável. Minha gratidão eterna ao Universo por esse encontro. Por tê-la como minha filha.


Do seu pai,

Pedro

João, Irene e Teresa,


a sensação térmica era de seis graus negativos. Por conta do vento – invisível. O sol, bem diante dos olhos, quase ao alcance das mãos, mentia; fingia nos aquecer, mas não: seis graus negativos, o vento invisível e o sol a irradiar luz (mas não calor, contrariando algumas Leis – a isso servem leis, para serem contrariadas). O único som vinha de dentro. Em voz alta, seus nomes me vinham e a certeza de que estavam ali, comigo. E mais uns minutos, a voz alta corrigia: estavam, estão e estarão ali ou em qualquer outro lugar. Pela primeira vez na minha vida, senti saudade. Via vocês, ao redor. Ouvia suas vozes. O calor de vocês era o único capaz de me aquecer – e aquecia. E logo chorei, silenciosamente, enquanto a voz alta gritava por dentro. O melhor lugar para sentir saudade é no deserto, diante da certeza que nada vai mudar o estado das coisas. Exceto o que nos ocupa por dentro. Lá, diante do nada, vocês estavam comigo – e o que era saudade, o vento frio levou, o sol aqueceu, o silêncio cantou. O Deserto do Atacama é um lugar que vocês três precisam ir, quando estiverem maiores, filhos. Juntos ou não. Comigo ou não. A solidão será a mesma. E a certeza de que existimos uns para os outros também.


P.S.: passei boa parte do fim da tarde e começo da noite de ontem olhando para São Paulo. Imaginando quanta solidão pode habitar os milhões de apartamentos com pouco vento, luz artificial e falta de calor humano nas relações. Tive vontade de gritar em voz alta: saudade a gente sente no deserto.