Filhos,

chegamos em Barbacena no dia 2 de agosto. De lá para cá, não escrevi uma linha sequer no Do Seu Pai. É que chegamos sem casa para morar, sem teto – e sem chão ficamos. Ronaldo nos recebeu no apartamento dele, pequeno e acolhedor. Cruzamos o caminho de Ana Clara – encontramos uma casa através dela. Descobrimos Zana e sua cruzada pela educação. Passamos a esbarrar com Alice e Bebel com frequência, que sorte esbarrar em sorrisos genuínos. Conheci Dr. Selênio. Perdemos a chance de conviver mais com Lourdes, que dor. Levamos nosso tecido de Adriana Barra para passear com sr. Ladeira. Vimos o filme de Marcos sobre os tucanos que moram na nossa lareira, jogamos a lenha no lixo. Nos admiramos com a delicadeza e bom humor de Carol e Rodrigo. Nos assustamos com o perrengue de Enrico (que bom que você está bem, cara, que alegria). Tivemos jantares deliciosos com Julia e Pablo. Papos igualmente deliciosos na mesa da cozinha com Erica, Karine e Fabinho. Conseguimos plantar a grama do quintal, fazer a gambiarra de lâmpadas e até montar um arduíno. E a lasanha da mãe de Tati, João? E a beleza de Isabela Maria, Irene? E o humor de tia Fran, Teresa? A visita da sua avó Marinês, estes dias, também foi um marco de amor nessa nossa chegada. Pois bem. Desde que chegamos, não havia escrito nada no Do Seu Pai, filhos. Mas a gente começou a escrever, juntos, uma história linda aqui fora.

 

Do seu pai,

Pedro.

João,

João,

nunca aceitei esta cadeira: pai-inspiração. Ser pai de três já é uma tarefa e tanto. Ser inspiração, impossível. Sempre preferi sentar na cadeira do lado oposto, de quem observa ao redor e se inspira nos amigos. Foi assim com tio Joaca, que me trouxe o violão. LulaQ, que fez gostar dos sets de filmagem. Pio, que me apresentou à câmera. Recentemente, com Pablo – ele ainda vai me fazer voltar a estudar música. Olho para o talento do outro e vejo mágica. Isso me inspira. No exemplo do outro, tento me superar, aprender, realizar. Foi assim com seu avô Homero. Quando ele sentava diante da máquina de escrever, algo hipnótico acontecia. E mesmo sem saber exatamente o tamanho da força das palavras dele, aquele momento na redação me marcou. Seu avô era um herói de uma luta ingrata, do jornalismo contra a ignorância, essa arma covarde que os poderosos usam desde a República para manter seu poder. Um pensador. Juntou Platão e Guimarães Rosa e vive repetindo: só sei que nada sei, mas desconfio de muita coisa. Comunista de fé. Justo implacável. Incorruptível. Recusava açúcar na mesa de usineiro para tomar café amargo e continuar lutando. Voltava para a máquina e disparava. Você nunca havia visto uma máquina destas, até semana passada. Observei o seu momento. Cliquei. Pensei se deveria falar sobre o assunto. Eis que no sábado, num restaurante, um cara se aproxima e relembra um texto meu para você, sobre a importância de escovar os dentes. Lucas, o seu nome. Disse que havia se inspirado naquele texto. Essa palavra ficou me massacrando. Inspirar. Inspirei – puxei oxigênio para dentro dos pulmões e pensei na responsabilidade de ser seu pai (e de Irene e de Teresa). E pensei que a gente precisa mesmo deste outro oxigênio. Lucas, obrigado pelo filho que você deve ser. A cada pai que me manda emails, obrigado por dividir angústias e conquistas. A Joaca, Pio, LulaQ, Pablo, obrigado por serem os melhores balões de oxigênio. E a você, João, mais do que a qualquer um, obrigado por me inspirar a inspirar alguém, mesmo que não seja você ou suas irmãs. 

Do seu pai,

Pedro.

João,

ainda estamos sem casa na nossa nova cidade. Sem teto e sem chão. É uma questão. Mas basta você ir ao cinema, voltar e temos a resposta. Você foi assistir Divertidamente com sua mãe, me esperou voltar para casa à noite para contar sobre o filme. E no momento em que diz “tem uma hora, pai, que a menina chega na cidade nova, acho que é São Francisco, é São Francisco?, é, São Franciso, mas não tem onde ficar, não tem cama, nada, dorme num colchão, no chão”, você me olha, espera uma reação minha. Reação que vem. Fico concentrado, fico emocionado e penso que você começa a compreender as mais complexas formas da gente entender o que está ao nosso redor, como transformar em sentimento e, por fim, como agir diante disso. Fico em silêncio porque não há nada a ser dito. Minha reação é não reagir, esperar que a história continue. Você continua. Você entendeu. Nem sempre temos teto. Nem sempre temos chão. Mas assim, juntos, onde quer que seja, temos o que fica entre os dois. Entre o teto e o chão estamos nós. E isso já é a nossa casa. Você não me conta o final do filme, não pergunto. É feliz.

 

Do seu pai,

Pedro.

São Paulo,

muito obrigado. Você foi maravilhosa comigo, em cada um dos meus dias aqui. Trouxe amigos novos que sequer esperava, me fez caminhar profissionalmente, abriu minha cabeça a cada nova exposição nas suas tantas galerias e museus, me apresentou à fotografia, descortinou as melhores peças e shows, serviu – à mesa, com presteza – sabores inesquecíveis, tirou o carro da minha vida durante a semana e me apresentou às calçadas. Tantas coisas que teria que te agradecer, desse cotidiano tão intenso que só você tem, no Brasil – mas há algo muito mais importante. Você recebeu de braços abertos meus três filhos, São Paulo. São três paulistaninhos atípicos. Carregam dois ou três sotaques distintos numa mesma frase: colocam o “r” carregado no lugar errado, falam oxe e quando vão à padoca pedem tapioca. Obrigado por tê-los acolhido como filhos teus. Mas agora é hora de partir e, sim, esta é uma carta de despedida. Vou para uma vida mais pacata. Vou ter (ainda) menos pressa. Vou consumir (muito) menos. Vou aprender a plantar, cuidar da saúde, beber água decente, voltar a andar de cavalo (quem diria?), estudar música, ler mais, experimentar o silêncio, desligar o celular de vez em quando sem ter medo de perder algo. Vou ficar perto do teatro, da música, da palavra. Estou indo para o interior de Minas Gerais (sempre soube que esse amor iria acabar nisso), para Barbacena, aquela cidade-antítese ao teu conceito de cidade, São Paulo. Vou frear o mundo, contemplar mais e ter menos certezas e verdades. Vou – incessantemente – buscar as felicidades dos meus filhos através de menos necessidades (porque quanto mais se precisa de coisas, menos temos tempo de ser gente). Obrigado, São Paulo, muito obrigado. Mas agora estou indo embora de ti. Estou indo reencontrar comigo. Vamos, filhos? Está na hora da gente ser um novo lugar.

Do seu pai,

Pedro.

João, Irene e Teresa,

lugar somos nós. Não há espaço territorial que faça sentido se lá não estivermos. Levamos os lugares para fincarmos as raízes do pensar. Vejam: o mar, sem nós, é deserto. Seja sem a nossa imaginação, seja sem a nossa presença (estar presente também é imaginar-se, não acham?).  O menino que nunca viu o mar – pense nele, um menino apenas de bermuda e chinelo, pronto para conhecer o mar. Enquanto ele está na estrada, neste eterno momento que antecede a sua chegada e que é exatamente o seu trânsito, caminho, percurso, o mar não existe, está apenas nele (na sua imaginação). Imagina-se o mar de diversas formas – e este menino, em trânsito, o vê, ao fechar os olhos, de uma forma impossível de ser compartilhada com nós aqui, que apenas o acompanhamos na jornada. Ao pisar na areia e levantar a cabeça diante do horizonte, o menino faz existir o mar (com a sua presença). Lá está o mar do menino. Nele. As águas são agitadas – e o menino havia pensado que fossem calmas, o coração espuma. Há mais sal do que as papilas pudessem supor, e o menino beija seu próprio lábio para saber. A areia molhada no corpo faz o menino sentir calafrios em partes do corpo que não costuma lembrar que existem. Sabe, filhos, dia desses eu fui, de chinelo e bermuda, a convite do Beach Park, dar início a um trabalho lindo para os 30 anos do parque. Um monte de gente incrível, junta, trabalhando por este portal mágico que é aberto todos os dias para fazer os olhos de meninos (outros) brilharem diante de tanta felicidade em estado líquido. Foram alguns dias. Passou o meu aniversário (com amigos de uma vida inteira). Vocês foram para Brasília, depois Recife. Eu fiquei abraçado com o trabalho e com a saudade. E também com pessoas novas que foram aparecendo e enriquecendo o meu pensamento de menino que está na estrada na direção do mar. Que lugar é este que vou inventar e me fazer presente? Foram muitas descobertas. Meu lugar, este aqui, é o mar agitado de hoje em Fortaleza (lugar de despedir-se). Meu lugar, este aqui, é o concreto monótono de São Paulo (lugar de chegar). Meu lugar, este aqui, é o lugar para onde irei no próximo post. Quem sabe eu vou para este lugar, que sou eu – e onde me imagino e estou presente. Venham, filhos. Estou em São Paulo esperando por vocês, esperando para a gente conhecer um lugar novo na gente. Venham.

Ah. Só mais uma coisa para a gente lembrar, filhos: o mar, criatura do menino, estica as ondas para tentar puxá-lo para a dança. O menino, criador do mar, pula as ondas e despede-se; e talvez queira inventar montanhas.

Do seu pai,
Pedro.

Marta,

família é um campinho de várzea. Não tem grama verde para se gabar. Rede, quando não tem grandes furos, é luxo. A marcação de cal some, cabelos brancos surgem. As traves, meio capengas, permanecem de pé mais por crença do que por engenharia. A gente cobra escanteio, corre para cabecear, espera rebote, ataca e defende. Não tem banco de reservas, todo mundo é titular e joga todos os tempos, ainda que se prorrogue algum sofrimento, ainda que haja pênaltis para os de coração forte. Nesse campinho que dorme cedo por não ter refletor, a gente joga aberto. Joga limpo. Joga duro, quando necessário, mas essa não é a regra. O fundamental é que a gente joga junto. E num campinho assim, simples, feito a casa muito engraçada de Vinícius, um campinho familiar, a seleção precisa estar muito entrosada. E está. Veja essa da foto: é a centroavante, Teresa, a caçula na escada-arquibancada. Joga no ataque, que é uma maneira de garantir seu espaço no time que, quando ela chegou, já tinha dois titulares: João na defesa, zagueiro que não machuca adversário, e Irene, filha do meio que domina o meio-campo da casa inteira. Nesse time ainda há uma capitã, líder insubstituível, craque na difícil arte de manter o espírito de equipe mesmo quando estamos em algum jogo perdido, levando uma goleada. Lua, esposa e mãe. Estaria contente só de vê-los jogar, mas fui convocado para ser pai. Um lateral pesado, meio fora de forma, sem pique, mas que entendeu o seu papel. E aqui estou, me preparando para vê-la entrar em campo daqui a pouco, na Copa do Mundo Feminina, no Canadá. Torcendo para que o seu exemplo seja o exemplo a ser seguido pela minha família, principalmente pelas minhas duas filhas. Que os ídolos delas sejam ídolas, feito você. Mulheres raras, únicas, que vencem na vida. Bom jogo, Marta. #jogaparaelas

 

Do seu fã,

Pedro.

Irene,

o setor das arquibancadas reservado para os que acreditam está quase vazio. O cheiro de mijo nos corredores anuncia os fantasmas do passado que habitam o lugar. As bandeiras, deitadas, estão rotas – o luto dos panos, como a colcha do casal que não se encontra mais às quartas, depois da novela. As camisas já não nos vestem – servem a propósitos outros, despropositados. Depois de tanto tempo sendo sábado ensolarado, o futebol brasileiro virou um domingo de chuva. Desinventaram o amor, filha. Fora do campo, homens de preto roubam o dinheiro. Dentro do campo, homens de amarelo furtam a memória. É muito triste para quem já viu o verdadeiro amor de perto e lembra bem. O amor rouco das gerais. O amor do choro prorrogado. O amor das faltas duras. O amor dos cartões não dados. O amor que dribla os mais duros adversários. Desinventaram o amor e agora temos que reinventar, filha. Me ajuda. Faz essa mágica.

Do seu pai,
Pedro.

Irene,

Amortece
Amordaça
Amorfia
Amor passa
Amor desce
Amor, fia
Essa coisa que combina a gente
Com um outro tão igual e diferente
Que por ora é para sempre
Que por vezes é para agora
E de repente, que sorte
Amor até a morte

Amor, fia
Amorrinha
Amornece
Amordaça
Dá para se saber quando chegou
Se quer ficar
Ou se pass

Do seu pai,
Pedro.

[valsa para uma bailarina matinal com seu sapo protetor de vestidos]

Filhos,

[foto: Pablo Bertola]

[foto: Pablo Bertola]

felicidade não dá em lata, caixa, vidrinho, sacola, num pote qualquer. Felicidade se planta com as mãos: cava-se na areia, coloca-se a semente, cobre-se, rega-se, observa-se até que os olhos provem: é fruta que nasce em pé; sonhar não funciona, tem que ter coragem e vontade para ser feliz, levantar e trabalhar. Dá trabalho. Se colhida antes, o resultado é amargura, como se a gente estivesse verde para ela. Se deixada para depois, pode cair e nos machucar. Plantemos. Ou: filhos, quando a gente chega numa estação de trem, prontinho para embarcar, carrega uma bagagem. Lá tem tudo que a gente precisa para a viagem. Mas observem: na volta, a bagagem é outra. Mais pesada? Talvez. Mais leve? Deus tomara. Que as nossas voltas sejam assim. Carregar menos peso faz bem para a alma e para a coluna – que no fundo são a mesma coisa, nos mantêm a caminhar, cabeça erguida. Caminhemos. Ou: filhos, uma estrada pode servir para nos levar longe. A trazer alguém que amamos para perto. Pode nos fazer chegar ao desconhecido, nos conduzir ao cheiro inesquecível, nos guiar por onde os olhos nunca imaginaram passear. Estrada pode servir para a gente parar. E, quem sabe, mudar de caminho. Mudemos. Ou: João, você deu uma cabeçada na janela, abriu um pouco a sobrancelha e talvez lembre disso para sempre. Ou: Irene, você descobriu com Téo que amizade não nasce da noite para o dia e talvez lembre disso para sempre. Ou: Teresa, você descobriu que dormir na rede é o maior conforto que inventaram e talvez lembre disso para sempre. Nesses últimos seis dias aqui em Barbacena, filhos, fomos tão felizes. Talvez a gente lembre disso para sempre. Ou: Lua, que família boa a gente escolheu para plantar, caminhar, mudar. Agora vamos pegar a estrada, é hora.

Do seu pai,
Pedro.

Teresa, Irene e João,

conheçam Tainá. Ela é o Brasil que deu certo, o lugar para onde devemos ir se aprendermos a voar. Nasceu em Araçuaí, tem 7 anos, canta feito um passarinho que habita a primavera eterna – estação propícia para quem usa as asas para distribuir pólen entre as flores. Está aqui em Barbacena, com mais vinte e seis crianças que dei a sorte de conhecer – com o esforço do trabalho. Dança, sorri, interpreta o seu próprio personagem. A menina feliz de um coral que cria harmonias humanas. Enquanto Tainá cantava hoje, pensava em vocês três, pedia ao deus no qual acredito, que é o deus do esforço e da sorte que os presenteasse com o dom do afeto – sou afeito a ele, já sabem. Esses dias em Barbacena me revelaram um afeto maior. Afeto de um por muitos, de um por um, de um por si próprio, de todos pelo lugar que se habita. Enquanto descobria o coral dos Meninos de Araçuaí, nos ensaios com o Grupo Ponto de Partida, descobria este lugar desconhecido em mim. Este lugar que quem tem asas habita. Esta primavera eterna. Vamos voltar em breve, filhos. Aqui tem pólen. Aqui tem Tainá. Vamos voar?

Do seu pai,
Pedro.

ps: esse fim de semana, dias 23 e 24, tem o espetáculo Presente de Vô, do Ponto de Partida+Meninos de Araçuaí, em Curitiba. Estaremos lá, filhos. Que alegria.