Irene,

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daqui a quinze dias você estará andando. Já arrisca dois ou três passos, sozinha –mas ainda é um processo de descoberta intenso demais, que faz com que você sinta vontade, medo, euforia e dor (quando cai). O tal aprendizado. Daqui a um mês, você estará falando as primeiras palavras com sentido. Hoje, seu dialeto nos indica caminhos do que você quer, ou pede, ou não quer, ou não pede. Mas virão palavras, em breve, em bom português. Daqui a um ano, você estará andando e falando –simultaneamente. Terá vontades, medos, dores. Falará sobre alguns deles. Pedirá indicações de rumos, mas andará por conta própria em direção ao que quer. Daqui a uns anos, filha, iremos olhar para essa foto, juntos, e eu serei sua memória. Você não irá lembrar deste momento. Eu irei. Hoje, ao vê-la de pé e ensaiando um "cá" –que pretendia ser um "vem cá"–, imaginei que, no futuro próximo, você conseguirá andar e falar. Ao mesmo tempo. E só existo para isso, filha. Para caminhar ao seu lado. E dialogar.


Do seu pai,

Pedro.


p.s.: Desculpe encerrar assim, filha, mas preciso: você está linda, nossa, como está linda. Não que isso seja importante para a vida. É apenas uma constatação que me fugiu à boca e ao coração.