Irene,

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este texto aqui poderia ser escrito em qualquer tempo da minha vida, ó: "essa moça com você, na foto, é a minha prima Ju, que amo". Mas é muito melhor que seja escrito hoje, quando ela acaba de sair daqui de São Paulo para voltar para casa e, infelizmente, ficar distante de nós. O texto hoje, filha, é sobre isso. Distância. Tem gente que mede distância pelo espaço percorrido. Diz que precisou cruzar milhares de quilômetros para encontrar o lugar que sempre sonhou morar. Que estava a poucos metros do ídolo maior, mas não teve coragem de pedir um abraço. Que os lábios pararam a centímetros dos lábios do amor, mas o beijo não veio. Seu pai prefere medir por tempo. Ju e eu ficamos distantes por uns tempos. Uma eternidade. Uma distância inaceitável para quem tinha por costume dividir a vida, os lugares, os ídolos, os amores. Inaceitável. Ju e eu ficamos distantes por duas vidas. A dela e a minha. E isso foi muito, muito triste. Fim de semana passado, com um frio danado na barriga e outro nas esquinas da Vila Madalena, nos reencontramos. E, separados por distância alguma, permanecemos um tempo –pouquíssimo, para o que o meu coração pedia– juntos, observando você e João, Carlinhos e Maria (seus primos), fazendo o exercício mais bonito da existência humana, que é descobrir o outro. Você, seu irmão e seus primos, que estavam separados pela distância que minha prima e eu também estávamos, aquela eternidade, repentinamente eram o destino dos nossos olhares úmidos. Próximos. Ali. No tempo exato para que quaisquer distâncias inexistissem. Enquanto vocês se descobriam, sinto que nós redescobrimos um ao outro. E, espero, demos adeus como quem vai ali, mas volta. Como se distância fosse mesmo apenas uma questão de tempo. Nada mais. Até já, prima, te amo. Eu disse –ou pensei.

Do seu pai,

Pedro.