João,

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a gente não vive mais os momentos, prefere fazer fotos para postar no Instagram. A gente não contempla mais, tem pressa em atualizar qualquer assunto na timeline do Facebook. A gente não lê mais, busca no Google. A gente não aproveita o lugar bacana, faz check-in no Foursquare. A gente não se delicia com a comida, mas compartilha no Foodspotting. A gente não conta mais piadas, fala do vídeo do Porta dos Fundos. A Veja dará essa notícia em 2026, mas vou antecipar a capa para vocês, filho:

"Geração Double Screen: seus pais têm culpa".

Seguinte, filho. Tudo que está dito aí em cima, não fui eu que escrevi. Apenas copiei e colei (command c + command v). É importante que você e sua irmã saibam o que algumas pessoas falavam sobre mim, em 2013. Eu sou esse perverso vilão do primeiro parágrafo. O maluco hiperconectado que faz fotos de vocês na Virada Cultural, durante o lindo show do Pequeno Cidadão. O compartilhador eufórico de histórias de verão (suas, da sua irmã, nossas) no Facebook. O rápido no gatilho que saca uma resposta do celular sobre o seu questionamento sobre quanto tempo, em média, vive uma taturana (a sua taturana chama-se Cacau, é bom que ela saiba disso, por isso vou logo dizer aqui nesse post –viu?, não chamo "texto", chamo 'post'). O senhor Olá, Estou Aqui –que avisa quando está no parquinho do clube ou no Museu da Língua, com vocês. O gourmet de meia-tigela que adora clicar uma comida nova que você experimentou (tem sido muitas, por sinal, parabéns). Desculpe, filho. Por minha causa, você sabe a senha da iTunes Store e baixou o Saltimbancos original, ontem. Por minha causa, você acha absolutamente natural que seja possível prestar atenção ao desenho Apenas um Show enquanto joga Subway Surfers. Por minha causa, você conheceu a discografia de Milton Nascimento inteira no celular. Por minha causa, filho, você teve que desenhar sozinho por dez minutos enquanto eu escrevia esse texto. Ops. Post.


Do seu pai,
Pedro.