Irene,

poesia acontece quando a gente distrai o mundo com uma mão e, com a outra, faz carinho em quem tem os olhos tristes. Guimarães, você irá conhecê-lo, um sujeito descuidado –e feliz– que o diga. Do nosso raro momento silencioso saem as melhores palavras para o tão barulhento mundo lá fora, onde pessoas buzinam, carros gritam. No atropelo diário, não ter tempo para o outro nos torna tão intolerantes que é possível ouvir a notícia de que um homem apressado cruzou o bloco e o caminho de quem tentava fazer um carnaval. Poesia, filha, uma nesga de abraço na distância quase imperceptível da frieza. A constante força que nos leva a rimar aquilo que não combina. Ontem, enquanto um bloco desarrumado, desorganizado e desafinado cruzava as ladeiras da Vila Madalena, nós cinco, num misto de perplexidade e euforia, corremos para a varanda. Um bloco? Hoje? A gente pode ir lá, fantasiado? Mas e se começar a chover? Teresa consegue dormir no seu sling, enquanto a gente vai lá, rapidinho, só para ouvir uma música de perto, mãe? Diante das nossas próprias questões (seu irmão, João, contribuiu com excelentes perguntas), o carnaval se fez, bem diante dos olhos. Imaginei o menino, amigo de Galeano, que pede ao pai que o ensine a olhar o mar. Quer olhar, filha? É o mar, carnaval. Olhe. Penso na tarde dedicada a ouvir, exclusivamente ouvir, o poeta J. Borges, lá em Bezerros. Fiquei em silêncio por saber que estava diante de um fato memorável, mas igualmente por ter plena consciência da inutilidade das minhas palavras diante do mestre. Em silêncio, novamente, ouvíamos o bloco na rua ao lado. Eles tentavam o carnaval. Tentamos nós, também. Sua mãe, com Teresa no colo. João, com aquele riso feliz de quem recobra a memória na gaveta repleta de confetes sujos do ano passado. Eu, pobre de mim, como sempre, prestes a chorar por vê-los, felizes, ao meu redor, ali. E aí vem você, dançando a sua própria dança, sua incompreensível dança que mexe o mundo, a pequena colombina que carrega o meu estandarte mais colorido. Vai, filha, põe o sapato. Vamos descer. Existe carnaval em São Paulo.

 

 

Do seu pai,

Pedro.