João,

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nesse exato instante (são 20h28), falta luz em nosso prédio. Mais: em nossa rua. Em boa parte do nosso bairro. Tudo ao redor nem parece São Paulo. Me lembra algo como Serra Negra, no agreste de Pernambuco. Um silêncio, uma tranquilidade, quase ouço grilos. Mas você tem um (grilo) que rompe a calma.

 

– Pai, por que a tv não tem bateria, igual ao iPad e ao celular e ao computador?

 

Como um bom pai, um sábio a quem você admira, um herói (já falamos sobre isso por aqui), respondo com firmeza:

 

– Filho, não sei.

 

A tv é uma das coisas mais antigas já inventadas e, das invenções que temos em casa, certamente é também a mais ultrapassada. Os apresentadores de jornal, por exemplo, sempre entram de cabelos pretos e só preparam sua saída com a cabeça toda branquinha, bem velhinhos, quase sem saber o que estão dizendo, porque repetem, noite após noite, as mesmas notícias, mudando apenas nomes e sobrenomes dos principais noticiados. Seria a mesma coisa que a gente ir todos os dias a Sala São Paulo (que alegria), mas com direito a ouvir apenas o Bolero de Ravel (que lástima). As tv's de hoje têm telas planas, fininhas, de plasma, de LCD e outras tecnologias que não conheço. No passado, tinham válvulas. Válvulas de escape: programas escritos por quem escreve, dirigidos por quem dirige, apresentados por quem apresenta. Hoje, não. Se você tiver uma câmera daquelas pequeninhas de brinquedo (hd) e gostar de viajar para paquerar meninas de outros países, vai lá no Multishow e diz que tem um programa ótimo. Vai para onde, essa nova tv, filho? Não sei, respondo novamente, mentalmente, intimamente. Não sei.

Ainda bem que o iPad estava carregado, assim você lê, joga, assiste a alguns vídeos que pode escolher na sua lista.

Ainda bem que o celular estava carregado, assim posso compartilhar minha conexão à internet.

Ainda bem que o computador estava carregado, assim esse post vai ao ar antes mesmo que a Eletropaulo resolva o nosso problema de energia aqui no bairro, na rua, no prédio.

Por enquanto, filho, vamos lá. Faz de conta que estamos em Serra Negra, faz de conta que é São João.

 

Do seu pai,

Pedro