João,

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é preciso comer doces, sempre, mesmo que seja preciso escovar os dentes logo depois. Nada se repete, nada é igual, tudo está em constante mudança nisso que se convencionou chamar “Universo”. O universo, filho, nada mais é que uma virose científica. Algo que ninguém sabe explicar e todos ficam elaborando teorias. E teorias são importantes, talvez mais do que gestos, atos. Você vai ouvir muito essa ladainha da boca do papai aqui. Teorias são importantes. Tenho uma para dividir nesse exato instante. É preciso comer doces. Você irá perceber, ao longo dos momentos marcantes de vida, que pessoas que comem doce regularmente têm muito, muito menos propensão a ficar tristes. Comer doces é um cuidado nobre com os que nos cercam. Isso irá desencadear em você, certamente, outros pequenos enormes cuidados, manutenções, prevenções, observações fundamentais para que a sua saúde mental dependa minimamente de tratamentos ao longo dos anos. Posso garantir: pessoas que comem doces têm uma lista infinita –e eficaz– de demonstrar seu amor pelo outro. São os que assistem ao filme inteiro de mãos dadas. Que dividem o edredom. Passeiam com o cachorro logo cedo, ainda que estejamos no inverno mais rigoroso. Menos rigorosos, cedem vez no trânsito para os apressados que teimam em acreditar que chegarão a algum lugar que não seja um poste. Ensinam os mais velhos a dançar. Cantam junto com os mais novos para desafinar sem vergonha. Sem vergonha, tomam sol nus, na varanda. Sem varanda, tomam banho de chuva à noite, na grama. Contam estrelas. Contam histórias. Contam segredos. Beijam de olhos abertos para ter certeza que aquilo está acontecendo. Dormem tarde, levantam antes do sol. Escovam os dentes assim que acordam. Em seguida, comem doces. Sempre.

 

Do seu pai,

P.