João,

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no domingo a gente ficou um bom tempo na frente do computador olhando suas fotos antigas. De repente, fui passando automaticamente as imagens, mas concentrei o meu olhar em você –no seu olhar. Notei que você viu, em si próprio, um distante bebê, uma outra época, disparou até um "quando eu era pequeno" no meio de uma frase. Espera, João. Espera aí. Para onde você vai com tanta pressa? Pressa é lá fora, onde os carros andam lentos. Pressa é lá fora, onde as pessoas correm para fugir da chuva. Pressa é lá fora, onde aquele grupo na calçada (está vendo?) vai junto almoçar, bem rapidinho, porque tem que voltar logo para o trabalho. Pressa é lá fora, onde o casal discute no banco de praça que antes era sede oficial dos beijos do bairro. Para onde você vai com tanta pressa? Vai lá fora?

E uns segundos passam lentos até que você vai na porta. Nem lá fora, nem aqui dentro.
Vai na porta. Você não está com pressa para nada. A não ser para descobrir que quase passou mais uma etapa. E que é apenas uma etapa. E que as etapas servem a isso. Para a gente passar. Passa, filho. Passa. Sem pressa. Obrigado por me ensinar.

Do seu pai,
P.