João,

esse texto aqui diz muito sobre quem você é.

Ontem, sua irmã Teresa nasceu. À tarde, levei você para conhecê-la. Você, como de costume, agiu de forma encantadora. Beijou sua mãe, deu os parabéns, elogiou sua irmã, disse que ela era uma bebê muito linda, abraçou sua avó, o carinho de sempre. No momento em que estávamos lá, infelizmente, um susto. Teresa estava no meu colo quando, repentinamente, engasgou. Muito. Tivemos que chamar as enfermeiras às pressas, que a levaram. Fomos atrás, ficamos olhando do vidro. Oxigênio, aspiração, mais enfermeiras, mais enfermeiras, que segundos ruins. Você e eu ficamos um tempo no vidro, até que uma das enfermeiras veio e disse que estava tudo bem, que era muita secreção, que era normal. No fim da nossa visita, lá no estacionamento, notei o seu ar preocupado. Olhava para o infinito, em silêncio. Dormiu no caminho para casa. Comeu pouco. Atipicamente calado. Acordou, hoje, ainda assim. Calado. Ia para o cinema com a sua avó, pediu que não fossem. Pediu para ir ao hospital, que queria encontrar com sua mãe, que estava com saudades. Abriu a porta e mal viu o berço onde sua irmã dormia. Me viu, mas foi direto para a sua mãe. Subiu na cama, deu um abraço apertado nela, perguntou onde estava a sua irmã. Apontamos. Para a sua surpresa, ela estava bem ali, dormindo, calmamente, diante dos seus olhinhos atentos –dessa vez, bem atentos. Deitou ao lado da sua mãe e dormiu profundamente. Acordou com febre. Viemos para casa e, durante o jantar, perguntei se você estava triste. Depois de muitos nãos, você resolveu me dizer qual era o problema.
– Não estou triste, pai. Eu estava com medo da Teresa engasgar de novo.
Agora, filho, você está aqui ao meu lado, em casa, dormindo, expulsando a febre, suando. E eu estou aqui, olhando para você e para essa foto que fiz no estacionamento, ontem. Você e seu olhar para o infinito.
Está tudo bem com sua irmã, filho. Dorme em paz. Está tudo bem com nossa família, que tem você. Boa noite.
 

Do seu pai,
Pedro.