João,

16.jpg

o importante é ter quintal.


Um fundo de casa com uma pitombeira, uma pitangueira, talvez uma caramboleira. Poucos metros de terra que deem para receber jarros recostados nos cantos de muro. Brechas entre copas por onde o sol, diariamente, venha nos saudar. Mas nada há de mal se o fundo da casa destinar-se a outras fronteiras e, numa inversão estrutural –mas não emocional– o quintal estiver à frente do terreno. Boa parte das vezes, quando isso acontece, o quintal ganha o nome de jardim. Metido a besta, o quintal assume seu posto de porta-voz da casa e diz, logo que entramos:


– Sejam bem-vindos. Eu sou um quintal, sendo que jardim, sendo que quintal.


A grama preguiçosa, penteada e espreguiçada sobre o chão, um convite ao nosso corpo que deita, gira, para, levanta e coça, como coça quando levanta. Flores espalhadas aqui, acolá e pelo caminho que liga o acolá ao aqui. Pequenos pés de café, de acerola, de goiaba, quem sabe de amora.

Nos dois casos, bom mesmo é quando o quintal tem uma mangueira.

Não o pé de manga, filho. Mangueira d'água.

Porque banho de chuveiro é muito bom.

Banho de banheira é muito bom.

Banho de piscina é bom demais.

Mas banho de mangueira, filho, ajuda nossas raízes a se firmarem nos quintais por onde passamos. Banho de mangueira espanta calor e esfria pensamento, lava a alma. Banho de magueira traz de volta aquela sensação de que ainda somos crianças. Inclusive quando estamos olhando os nossos filhos agirem como nós gostaríamos de agir e isso nos inspira a olhar para a vida por um outro ângulo. Onde o quintal não está nem à frente, nem ao fundo.

Está dentro.


Do seu pai,

Pedro.