Irene,

está um silêncio tão grande aqui. Sinto o coração batucar na alma. Feito um pedido, uma súplica para vocês voltarem logo, que a casa assim, sem, não tem sentido. A casa assim, sem, não tem cheiro, não tem gosto, não tem luz, não tem nada. Nem consigo escrever, filha. Amanhã vocês voltam de viagem. Você me devolve as palavras. Vem. Volta.

Do seu pai,
Pedro

 

Pedro,

você prefere o caminho. Mais que o destino, mais que a origem, prefere o caminho. Dia desses, você disse a um pequeno grupo de pessoas, na Escola São Paulo: “estou em trânsito”. À deriva. Pois tenho algo a dizer. A lembrar.

Há uma década, que não é porra nenhuma nessa vida, você tinha a convicção de que se bastava. De que muito do mundo girava ao seu redor. Olhou com menos atenção a algumas pessoas que estavam bem diante dos seus olhos e, certamente, deu mais atenção a quem não esteve ao seu lado, nem por poucos instantes. Você acreditou cegamente que aquele seu trabalho era importante. Gastou o dinheiro que não tinha com um carro zero quilômetro, lembra? Patético. Experimentou todos (sim, todos) os restaurantes bons, por todas (sim, todas) as cidades que passou – mas esqueceu de usar um pouco dessa grana para, sei lá, fazer um curso de gastronomia. De cozinha mesmo. Aulas para preparar um feijão: não fez. Por achar que muito do mundo girava ao seu redor, não girou. Não pirou, coitado de você há dez anos. Deixou para depois (tantas coisas, aliás). Esqueceu de tantas outras. Esqueceu de levantar no primeiro dia da academia – e não lembrou do segundo, nem do terceiro. Já havia cursado uma faculdade. Não concluiu. Havia cursado uma segunda. Também não concluiu. E uma terceira. Não preciso dizer que não concluiu, igualmente. Estudou pouco violão. Fingiu ler Os Sertões. Detestou Tarantino. Você não tinha um amigo taxista; um amigo sequer taxista. Há dez anos, Pedro, você tinha convicção de que muito do mundo girava ao seu redor. De que se bastava.

Isso há uns dez anos. Pouco tempo, Pedro.

Em 2006, você reencontrou Lua. Ainda em 2006, casaram naquele cartório pequeno, na Praça de Casa Forte, em Recife. Você nasceu onde acontece a Festa da Vitória Régia. Não deve ser acaso. Em 2007, a festa de casamento de vocês – era janeiro, em Olinda; janeiro, em Olinda, o maracatu passa pela ladeira, lentamente, ensaiando; em janeiro de 2007, o maracatu passou lentamente, lá fora, ensaiando, enquanto Lua subia os jardins do Amparo, toda de branco – fez um dia lindo, uma tarde linda. Seu padrinho, Lula, cantou. Seu amigo, Silvério, cantou. Todo mundo dançou junto com vocês para celebrar o seu nascimento, Pedro. No dia 20 de janeiro de 2007. Poucas malas e um grande recomeço depois, Lua e você, em São Paulo, chegaram cedo à maternidade. Estava frio. Agosto. João nasceu e você cortou o cordão umbilical que o conectava à mãe, pediu licença e conectou-se, também. O filho que te acompanha há tanto tempo – disse o seu Guru. O filho que te acompanha há tanto tempo, Pedro, há tantas vidas. João nasceu, você nasceu de novo. E esse menino crescia, entendia o mundo, dialogava. João trouxe o diálogo. Acabou de vez com qualquer palavra que pudesse ficar presa. João trouxe a liberdade do diálogo. Diálogo liberta para a paz e para as pazes. Você nasceu, em João, em paz. E esse menino crescia. Ensinava. E no seu aprendizado, aprendeu que o acaso não existe e se há um amor maior, um amor desses que seja o maior do mundo, ainda assim ele pode ser tão grande a ponto de multiplicar-se e, ao ser dividido por dois, continuar o maior do mundo – para dois, para mais (amor é conta que se arredonda para cima). Irene chegou em agosto, também. Como foi difícil, dessa vez, nascer, não foi? Você nasceu menina e imaginou, sofrendo, sofreu imaginando que aquela pequena olharia somente para a mãe, que você mesmo tanto olhava, também. Era amor duplicado. O seu pela pequena, pela mãe. E a pequena crescia e sorria para você como não sorria para ninguém. E acordava apenas para chamar o seu nome, no quarto ao lado. Era para isso que ela despertava, ora. Para chamar o seu nome. Cedo? Não existe cedo para ouvir a voz de uma filha chamando o seu nome. Era cedo. Tarde demais. Você já nasceu apaixonado por uma Bolota iluminada que, ao sorrir, clareava o céu, soprava nuvens, deixava azul o mais cinza nos horizontes de agosto. Bem-vindo, Pedro. Nascer de novo, assim, é para poucos. E de pouco em pouco, João crescia, Irene crescia, você crescia tanto a ponto de se perguntar que Pedro era aquele jamais visto no espelho do seu próprio quarto. Distraído, com amor duplicado no peito pelos pequenos João e Irene, com o amor de sempre do reencontro com Lua, desde aquele dia que resolveram ser um, um de maio; já falei que o primeiro dos nascimentos foi em primeiro de maio, em 2006, antes mesmo da Praça de Casa Forte? Pois foi. E foi distraído, sem pensar no amor – porque amor não se pensa, pensamento é pouco para amor. Amor perdido é amor pensado – você pensou, um dia. Pensar nos leva à filosofia, que põe luz sobre as coisas todas. Amar cegamente, a antítese da filosofia, um mantra tatuado na sua língua. Amor é coisa para distrair a gente do mundo, enquanto ele gira, pensa que gira, pensa, mas não em torno da gente. Dez anos depois, Pedro, como se nada mais pudesse girar, ou distrair, você nasceu em janeiro. Nasceu natural. Nasceu gritando, chorando, doendo, nasceu vendo a sua mulher virar bicho virar mulher virar bicho virar mulher virar bicho virar mulher virar um nascimento novo, como se não bastasse já ser o pai mais feliz do mundo, para receber mais felicidade, mesmo sem ter nem armário em casa para guardar tanta. Você não cabia em si. Teresa cabia. E chegou para ser o seu novo nascimento, de um jeito novo, um novo amor na vida. O mundo, coitado, girando lentamente, pensando em segundos, minutos, horas. O mundo pensa. E você girando na velocidade do dar à luz, vendo Teresa chegar. O mundo pensa quando gira. Amor não é para quem pensa, mundo. Dez anos depois, Pedro, você nasceu uma, duas, três, espera. Não conta. Conta.

 

--

 

Desde que eu nasci, em 5 de julho de 1975, nasci outras tantas vezes. Cada vez que recebi essa chance. Nasci em Lua, João, Irene, Teresa. Nasci diante dos que amo. Dos que admiro. Gente que foi me parindo ao longo dos anos, em descobertas de amizades sem fim. Nasci em mim mesmo, diante de um espelho, num quarto escuro, onde não me vejo. Sem perceber, sem pensar, distraído, nasci de novo, de novo, de novo, de novo – porque uma vida é muito pouco para só nascer uma vez.

Lua, João, Irene e Teresa, obrigado pelo que sou. Por cada dia que nasci.

 

Pedro

irene1.jpg
irene2.jpg
irene3.jpg
joao2.jpg

Teresa, Irene e João,

outono foi feito para isso. A espera pelo vento frio, escorregadio, que passa pelas menores frestas, por baixo das mais fechadas portas, vento atento que encontra persianas semi-abertas, janelas escancaradas, corredores-convite que dizem vem, vento, corre, é por aqui – até que nos pega de surpresa e traz arrepios de braço, nuca, perna. E ai de quem tentar fingir desprezo. Logo ele volta raivoso, capaz de abrir porta de quarto, esfregar-se pelos nossos pés, derrubar uns papéis no chão para avisar que está aqui – e já não o esqueceríamos mesmo. Outono foi feito para isso, também. Deixar o sol preguiçoso, mais tempo deitado que de costume, no começo do dia, no fim da tarde. Deitado, preguiçoso, generoso. Doura a luz, o asfalto, a copa das árvores, o chão. Espreguiça e oferece. Toma, sou eu, vim porque arrepio tem medo de aconchego. E a gente lá, a pensar que sombra cega e contraluz ofusca e que, ainda assim, prefere colocar a pupila para trabalhar dobrado para ver o sol acenar pela última vez, hoje. 
Sabe, filhos, uma das grandes descobertas, das mais dolorosas para o seu pai, foi que essa existência aqui obedece a uma lógica de ciclos. Hoje, no fim da tarde, o aconchego de vocês chamou o sol para sentar. Vem, sol, vem que lá fora o vento teima em desafiar quem sempre ganha. Dá aqui um abraço na gente, sol. Vamos fechar o ciclo de hoje porque amanhã, logo cedo, quando os pés tocarem o chão frio, a gente vai lembrar que outono foi feito para isso. Sentir arrepios, mas se aconchegar – ser o sol do outro, por um instante que seja.

Do seu pai,
Pedro. 

 

João,

é importante deixar o cabelo crescer. Por tantas razões, que esse texto aqui, coitado, seria um corte desajeitado caso eu tentasse falar sobre tudo. Passa pela relação do desapego que podemos ter sobre determinadas coisas (por mais importantes que pareçam ser), pelo entendimento de que o que somos nada tem a ver com o que aparentamos, passa pela maneira como desafiamos o olhar do outro sobre nós mesmos – como se pré-estabelecer signos (cabelos curtos, cabelos longos) nos colocasse em caixas. O cabelo caindo sobre os olhos, filho, sai num sopro. Voa na corrida pela praça com os amigos, na descida da ladeira, na bicicleta no parque, na varanda – numa parada rápida para ouvir o mundo lá fora. Sua mãe diz sempre para você olhar nos olhos das pessoas. E para um cara que consegue prestar atenção em tanta coisa – ao mesmo tempo – como você, isso soa até engraçado.
Sua mãe adora quando seu cabelo cresce.
A confiança dela na sua capacidade de observação, no seu senso de direção inexplicável (mesmo numa cidade grande e caótica como São Paulo, mesmo numa vida similar a isso), na sua maneira silenciosa de aprender, de ver adiante, de olhar um calendário na porta da geladeira e, repentinamente, entender o tempo (lembra, filho, um dia desses – há dois anos, no máximo – você pediu para sua mãe não correr no caminho a natação pelo simples fato de que não chegaria atrasado, porque você não entendia o tempo). Sua mãe tem o poder mágico de saber qual o tempo certo de cortar o seu cabelo. E de, até esse momento chegar, deixar que a cabeça acorde um pouco bagunçada mesmo. Porque ninguém acorda sabendo o que vai ser do dia.
Sempre que ela fizer cafuné no seu cabelo, lembre disso, filho.

Do seu pai,
Pedro.

Irene,

é importante que sua mãe corte o seu cabelo. Por tantas razões, que apenas esse texto não daria conta, sozinho. Passa pela relação de confiança entre duas pessoas, pelo entendimento de que o que somos tem pouco a ver com a nossa aparência, passa pela maneira como nos enxergamos – ainda que de costas para o espelho e diante de um outro. Mas quero falar de uma coisa muito, muito simples na experiência que você e sua mãe passaram. Ela cortou a sua franja. Que estava linda, mas longa. Cobria os seus olhos. Deixava uma cortina leve, suspensa sobre eles. Em momentos de cabeça baixa, praticamente tirava a visão do que estivesse bem diante de você. Nas corridas pela praça, podia esconder um obstáculo qualquer. Nos diálogos (são muitos) com o seu irmão, poderia fazê-lo ter a impressão de que você não o olhava nos olhos.
Sua mãe cortou a sua franja. A habilidade que ela tem de nos fazer ver melhor o que está bem diante de nós – você vai notar – é demonstrada diariamente. Ela e sua tesoura afiada, que brilha, elucida, corta e esclarece, revela. Sua mãe tem o poder mágico de cortar as nossas franjas, por mais irônico que um careca, como eu, fale isso. Sua mãe abre as cortinas para os nossos futuros, todos os dias. Sempre que ela se oferecer para cortar o seu cabelo, lembre disso, filha.


Do seu pai,
Pedro.




João,

em 1982, vi minha primeira Copa do Mundo. Lembro da sensação de descoberta do mundo mágico que existe – e resiste – quando bola e grama se encontram. Não tem a ver com patriotismo, paixão, cerveja, nada disso que tentam nos ensinar ao longo da vida. É bem mais simples. Para um garoto como eu, na época com seis anos, essa descoberta girava em torno do que acontecia depois que as partidas acabavam. O meu interesse em ver Sócrates, Zico, Júnior, Falcão, Cerezo, Éder e companhia em campo, no fundo, servia para que depois do show deles, eu fosse na rua jogar. Tentar reproduzir uma pancada do Éder – como bom canhoto, era dele que eu gostava mais. Um drible do Zico. Um calcanhar do doutor. Lembro que, jogo após jogo, minha certeza que sairíamos campeões aumentava. No jogo contra a Argentina (meu pai deve saber contar melhor que eu essa história), algo me tirou do sério e, por segundos, disse que estava com raiva e que seria melhor a Argentina ganhar mesmo. Até sair um gol nosso, claro. E veio a Itália. Paolo Rossi. E veio, no dia seguinte ao jogo, uma das imagens mais marcantes da minha infância – e creio que, de certa forma, o meu primeiro olhar sobre o jornalismo, ainda que não soubesse o que era isso. A capa do Jornal da Tarde com um menino que devia ter a minha idade, chorando, com a camisa do Brasil, e a manchete: "Barcelona, 5 de julho de 1982". 

[reprodução JT/O Estado de São Paulo]

[reprodução JT/O Estado de São Paulo]

Minha tristeza, um dia antes daquela capa memorável, havia durado pouco, quase nada. Depois da partida, uma pelada, uns chutes de esquerda, uns dribles, nada de calcanhar, porque eu não era tão bom assim, e pronto. Fim da tristeza, vida segue, até a próxima Copa, seja lá onde for.
Ontem, filho, você viu o seu primeiro jogo de Copa do Mundo. Torceu. Brincou com os amigos no intervalo. Torceu. Entendeu que a vitória não foi fácil. Perguntou que língua é falada na Croácia. Voltou a brincar. Antes de dormir, mais umas questões sobre Neymar, Oscar, o gol contra de Marcelo, o juiz japonês que estava ali para nos ajudar. Dormiu. Acordou como se nada tivesse acontecido e, repentinamente, o assunto voltou. Pegou o jornal, passou rapidamente as folhas até chegar no caderno especial da Copa, abriu, leu. Silenciosamente, sem pedir ajuda desta vez. Decodificando sozinho, mas pelos olhos do jornalismo (que você sequer desconfia do que se trata), o jogo de ontem.
Temo que esta seleção nos dê, infelizmente, uma capa de jornal triste até o fim do torneio. Mas torço que não. Torço por você, filho.

Do seu pai,
Pedro.


 

João,

ensaiei não escrever esse texto. Resolvi escrever um ensaio. Ensaiar. Um ensaio do que acredito que pode ser a relação de vocês com o que nos cerca – de muito perto – e chamamos de família. Um ensaio apenas, sem palco, sem holofotes, sem máquina de fumaça. Um ensaio fora do ponto de vista literário, mas do ponto de vista musical. A banda que estuda seu próprio som no momento em que prepara acordes e os coloca intuitivamente, nos tempos certos, num comando cerebral que, para mim, é inexplicável: estou tocando, não tenho tempo de tocar e prever (ao mesmo tempo) o que virá na música mas, sim, a nota cai no lugar certo, no tempo certo. Estou ensaiando agora. Escrevendo enquanto penso enquanto crio coragem enquanto procuro entender as razões pelas quais escrevo enquanto olho para quem escrevo: vocês.
José Saramago – vejo uma coleção (quase) infindável de livros dele na estante.

 

 

--

 

 

Filho, prefiro recomeçar do zero.

Vamos pelas vias de José Saramago (tudo dele está na nossa estante, leia quando o coração pedir). Num breve e raso resumo apenas para contextualizar o que se passa aqui: Saramago é um escritor português que, dentre muitas obras relevantes, concentrou (em uma delas) a tradução de grandes chagas contemporâneas, num Ensaio Sobre a Cegueira – livro que decodifica essas tais mazelas em torno de uma epidemia de cegueira branca, crônica, que destrói uma fração da civilização pela sua própria inabilidade de lidar com o novo: o nada, o vazio. Quando olho para essa foto (e estou a fazer isso desde sábado) e os vejo a olhar para o nada (o horizonte), um vazio azul em cima, quase verde embaixo, me deparo com a minha própria incapacidade de lidar com o que quero e o que preciso dizer. Insistentemente, você vai notar, recebemos recados de que devemos dizer o que “é preciso” e não o que verdadeiramente queremos. Como se o Buzz Lighyear tivesse que dizer “vamos em frente, pessoal, acreditemos!” e não “ao infinito e além!”. Um absurdo, né?
Pois bem. Vai o que quero dizer.

Até dia desses, você chamava esse cara de vovô. Porque ele é o marido da sua vovó, ora. Agora, um pouco maior, você o chama de Cris (com um “s” impecável, no final – ele adora te sacanear por conta disso). Esse seu vovô, desde a sua chegada, é um companheiro e tanto nas suas aventuras. Topa as suas paradas mais perigosas. Lutas. Mergulhos. Desafios. Corridas. Cócegas. Sempre que o reencontra, você recomeça do zero – como esse texto. Tudo volta. E vocês se redescobrem, brincam, se entendem e desentendem, naturalmente, como a vida é, portanto. Cada período de tempo que estão longe, é como uma cegueira súbita, branca, mas que é curada, sem muitas explicações, diante desse reencontro, redescoberta. E assim vocês dois me ensinam um mar de coisas.
Sua mãe e eu, diante de um dilema compartilhado (sempre falamos sobre sido criados em núcleos familiares pequenos – apesar de termos três irmãos cada um e sofrido com a distância ora geográfica, ora emocional, de cada um deles, de ambas as partes, dela e minha), sonhamos em ter uma família grande. Você, Irene e Teresa, para nós, são isso. Uma família grande. Um núcleo que sempre estará vinculado, pela simples existência de cada um, e de todos. Mas além de nós todos – e cada um – o entorno conta com arrecifes que nos protegem dos tubarões. São seis tios. Duas avós. Três avôs (porque além do Cris – mesmo que você não o chame mais de vovô, ele é, sim – ainda tem o vovô Careca e o vovô Angelo). Bisavô. Bisavó. Tio-avô por parte de mãe (ri sozinho agora pensando nisso: sua reação ao encontrar seu tio-avô Beto e pensar no desenho do Titio-avô). Alguns tio-avôs por minha parte. Primos de segundo grau. Primos que não são mesmo primos, mas quase-irmãos da vida. Uma família enorme. Um horizonte pleno, azul e quase-verde, tranquilo. Parece nada, quando estamos distantes. Ilusão de ótica. Mais um tipo de cegueira nossa. Vocês me ensinam que é sempre possível recomeçar a nadar. Vocês me ensinam que é possível ajudar o outro quando não dá mais pé. A dar a mão quando a correnteza está forte. A avisar quando a onda vem, grande, assustadora. Vocês me ensinam muito. Você e o Cris. Que a sua irmã, Irene, também chama de vovô. Vocês todos – e cada um de vocês dois aí, olhando para o nada-tudo – me ensinam a recomeçar.

Do zero.

Do seu pai (e do seu amigo-genro),

Pedro.

 




Teresa, Irene e João,

fomos todos. Viajamos três horas e algumas décadas. Três horas de avião. Algumas décadas na máquina do tempo que seu bivô pilota quando os encontra. No meio da tempestade (chove em Recife, chove muito no peito dele), o piloto pede para que cintos sejam afrouxados, poltronas sejam esquecidas, o espaço seja aberto para que vocês passem voando. Pela casa, pela festa, pelo fim de semana, pelo sorriso escancarado onde pousa, de improviso, um sorriso. Viajamos décadas junto com esse piloto do tempo que se refaz ao vê-los, ao abraçá-los. 
Vocês não fazem ideia de como é difícil explicar o tempo, filhos. Mas bastou a gente ir ali, uma viagem de três horinhas, para comemorar mais um ano do seu bisavô, vê-los assim com ele, vê-lo assim com vocês, entender que o tempo é simples. O tempo é um senhor de chapéu que nos distrai com felicidade.

Do seu pai,
Pedro.

João,

domingo passado, dia 25 de maio de 2014, seu pai foi convidado a dar uma palestra num festival. Palestra é quando você fica de pé e as pessoas sentam para ouvir suas palavras. Lá estava eu, acabando de testar computador, telão, som, para começar. Vejo, no final do corredor deste lugar onde ia ser a palestra, a felicidade.
Você.
Sua mãe o levou, de surpresa, para ficar sentado, ouvindo minhas palavras. Você e sua irmã Teresa – que, por não ter muito interesse no assunto da palestra, dormiu o tempo inteiro. Mas você, não. Prestou atenção em tudo. Perguntou algumas coisas, baixinho. Veio me ajudar, sentado à frente do computador, a passar os slides (slide é quando você acha que tem alguma palavra tão importante a dizer que a transforma em imagem).
A palestra foi ótima. Um monte, um monte, um monte de gente que admiro estava lá, só para me ouvir. Que honra. E você estava lá. Que honra maior ainda. Que alegria maior ainda. Como se não bastasse, filho, na segunda-feira, dia depois da palestra, você dividiu com os amigos, na escola, essa experiência. E aí a sua professora me escreveu isso:
"Ontem, ao chegar na sala de aula, uma das primeiras coisas que João me disse foi: preciso te contar uma coisa muito legal. Sabia que meu pai, esse fim de semana, deu uma palestra? 
Pergunto sobre o que era essa palestra e ele responde, entre risos: "oras, sobre o trabalho dele!". Após um tempo de gargalhadas entre nós dois ele continua. Foi na Escola São Paulo, tem várias por aí, porque o Pio também fez palestra, mas em outra Escola São Paulo. Meu pai queria muito ter ido na palestra do Pio e o Pio na dele – mas se eles fizessem isso ia ser a maior confusão, porque os convidados do meu pai veriam o Pio e os convidados do Pio veriam meu pai. Ia ser maluco, né, Erika? Concordo, enquanto ele dá muita risada. Então pergunto se ele gostou da sua palestra e ele diz "eu amei, meu pai é muito bom e as pessoas também gostaram e olha que tinha muita gente lá. Fiquei com vontade de bater palmas e gritar "bravo", igual a gente faz quando você conta uma história que a gente gosta". Pergunto por que ele não fez isso e a resposta vem com os olhos brilhando de tanta emoção e orgulho: "porque fiquei com vergonha. Mas ele sabe que eu acho ele "bravo", não sabe, Erika?". Então agarro nosso garoto e digo emocionada: Sim, João, ele sabe. Como não amar esse encanto de menino?" 

Bravo, filho. Você é o melhor. E também me faz melhor a cada palavra, a cada palestra sua. Obrigado.

Do seu pai,
Pedro.