Filhos,

hoje refleti sobre o amor. Me peguei pensando nesse desenho que me tornei. Eu, que era um rascunho de gente até que ela voltasse a ser parte de mim. Eu, que vivia para mim e tão só para mim e nunca fui bom o suficiente comigo mesmo para querer estar com alguém tão intensamente a ponto de não ser somente "com", mas sobretudo "em" alguém. Estou na sua mãe, coração, corpo, mente, alma. Estou nela a cada segundo dos nossos dias. Eu, que nunca tive noção de tempo e cheguei a pensar que viver era tanto. Agora tenho pressa, tenho urgência dela. Estou nela em sentimentos que jamais soube que existiam e sequer nome têm; talvez tenham nomes em latim como plantas raras que tudo curam – e que poucos encontram nas densas florestas do cotidiano da nossa existência. Eu, tão desorientado desde sempre, ando sem bússola no meio dessa mata, exímio conhecedor que me tornei desde que entendi que minha existência havia se tornado uma coexistência. Sem ela, inexisto. Com ela, respiro. Reflito, filhos. Como é fascinante essa sorte que tenho de estar tão perto de mim mesmo, toda a vida.

Do seu pai,
Pedro

João,

um par de meias.
Pela primeira vez na vida, você me pediu um par de meias emprestado. No futuro, isso será mera estatística na nossa história. Mas hoje é um dado e tanto. A primeira vez que você me pediu um par de meias emprestado – e pelo celular: “pai, tudo bem, você pode falar? É que minha meia preta está molhada e hoje tem futebol na escola, posso pegar uma meia sua emprestada?”.
As relações humanas quase sempre são pautadas em subtrações. O espaço dele termina onde o espaço dela começa. O cargo dela está acima, o cargo dele está abaixo. O dinheiro dele aqui, o dinheiro dela ali. A casa dela é grande, o apartamento dele é pequeno. Vão nos colocando métricas e limites que reduzem horizontes, assuntos e gestos. Que determinam fronteiras (visíveis ou não) e tornam o senso de propriedade mais importante que o valor da existência – as pessoas por vezes querem se apropriar, como se “ter” fosse mais importante que “ser”. O ser humano se reduz. Da metade para cá é o meu espaço, da metade para lá é o seu. Assim, meio a meio. Meia a meia. Penso que as relações humanas precisam de menos aquilo, mais isto: é hora do nosso, filho. O espaço, quando verdadeiramente coletivo, divide-se. As vontades, somadas, potencializam as chances da gente chegar juntos a um lugar (bem) melhor. Matemática é emoção. Tenho aprendido que a melhor herança que poderia imaginar para você já existe. São Irene e Teresa (e a melhor para Teresa: Irene e você; e a melhor para Irene: Teresa e você). Juntos, vocês multiplicam amor (a decisão de ter mais de um filho foi impensada – e a mais acertada). Solidão é lava (obrigado, Paulinho) que cobre tudo. E quando minhas meias já não existirem mais, filho, vocês ainda terão um ao outro para dividir, multiplicar e somar.

Do seu pai,
Pedro

Teresa,

ando me sentindo pequeno diante de você. Diante dessa sua capacidade gigantesca de aprender. João e Irene já haviam me mostrado que isso acontece. Acontece que, depois de dois filhos, a gente (que nunca sabe de nada nessa vida) acha que sabe tudo. Vem você e me surpreende de novo. São palavras, caminhos, olhares, repetições imperfeitas de outras imperfeições (nossas) e, assim, novas palavras, caminhos e olhares (só seus). A chave que você usa para abrir as portas e janelas é um sorriso. O seu jeito de se fazer bem-vinda é abrir os braços para os abraços. A descoberta que você fez (tão cedo, filha) é que o mundo fica melhor quando a gente entrega carinho sem sequer saber o que vai receber. Que começa na gente mesmo – e não na expectativa sobre o outro.
Pausa.
Viemos passar o feriado da Semana Santa em Brasília, com sua avó. Ontem à noite, sua mãe resolveu cortar seu cabelo. Um daqueles momentos de renovação – sua e dela (sua quando, ao olhar no espelho, se estranha mas se reconhece; da sua mãe quando, ao terminar o corte, não diz que você está linda, mas sim que está feliz – então está tudo bem). 
Voltemos.
Você parece já ter entendido, filha, que receber o outro com um abraço é brincar na frente do espelho: quem vem de lá repete o seu gesto, também abre os braços. Você já parece ter percebido que existe uma beleza maior em quem sorri gratuitamente para quem vem lá. 
Ando me sentindo pequeno diante de você. Diante dessa sua capacidade gigantesca de ensinar.

Do seu pai,
Pedro
 

Filhos,

essa é a primeira carta aqui que não foi escrita por mim.
Leiam com atenção.
E sintam como é bom estar rodeado de pessoas especiais.
–––
"João, Irene e Teresa,
soube que agora vocês tem um quintal e, onde há quintal, plantas e crianças eu também quero estar. Porque onde há quintal, plantas e crianças nunca falta amor. E é só disso que o mundo precisa: amor e boas histórias. 
Então envio a porta da minha casinha aqui na Irlanda (um país distante, gelado, cheio de florestas, fazendas, ovelhinhas e re-ple-to de crianças, como vocês) para que me contem sobre as brincadeiras do quintal brasileiro, está bem?
Ah! Essa portinha que nos conecta é mágica, se fizerem carinho nela eu vou poder sentir daqui!
Muitos beijos,
Fada Bia

obs.: envio também um pacotinho de sementes com sorte. É para seus pais, em agradecimento à ponte de palavras que construíram e por me deixarem brincar. Plantem, cuidem e vejam a sorte crescer com vocês!"

[Carta e presente lindo enviados por Beatriz Dourado, a quem mal sabemos como começar a agradecer. Bia, muito amor, hoje e sempre, no seu caminho. Você vai sentir muito carinho daí, pode ter certeza.]

Teresa, Irene e João,

lá venho eu, de novo, para falar de saudade. Estou longe de vocês por uns dias. É inevitável.
Austin é uma pequena cidade (se comparada a São Paulo) no Texas. Muita gente vem de outras cidades para cá – conheci um bocado delas. São estudantes, jovens profissionais, outros estão recomeçando a vida, tentando um ambiente mais pacato (ouvi isso de um deles, um senhor que virou motorista de táxi aqui para fugir do trânsito de Paris). Vim para fazer um trabalho. Um daqueles que vocês, filhos, sabem que gosto. Encontrar pessoas, conversar com elas, ouvir suas histórias. No sábado, fui ver um show de um senhorzinho chamado Willie Nelson. Num rodeio. Com os pés na lama onde os animais passam. Vocês me conhecem. Não é o terreno que ando sem tropeçar, este. Fui. Fiquei emocionado algumas vezes, em algumas músicas (especialmente uma interpretação de Georgia on my Mind, que me fez lembrar do avô da sua tia Maria Clara – me lembrem de falar sobre ele, no futuro, sobre os domingos que ele inventava; ele era um inventor de domingos). O senhorzinho, no palco, inventava notas que curam; ele é um médico. Ouvi uma moça chamada Juliana falar sobre o trabalho que vem fazendo contra a violência contra mulheres. Me emocionei muito. Não me deixem esquecer de falar sobre ela, que lapida pensamentos brutos; ela é uma escultora. Tive o prazer de conversar com um cara que faz desenhos que vocês conhecem bem: Procurando Nemo, Os Incríveis, Vida de Inseto, Monstros SA – e que agora inventou Lava, que fala do amor entre dois vulcões que atravessa milhões e milhões de anos até que se encontrem; ele é um cartógrafo. Hoje, reencontrei uma cantora amiga, Mariana, que veio apresentar um filme que inventou sobre um sanfoneiro lá da terra do seu pai. Ela é uma desbravadora. E esse sanfoneiro, Dominguinhos, é um chaveiro. Hoje, na metade da viagem, depois de tudo que já vi, ouvi e vivi, esse chaveiro abriu uma porta no meu peito. Tenho muito a contar quando voltar. Mas agora estou com uma saudade continental. Revisitei nossas vidas aqui de longe e, de novo, me dei conta de como sua mãe e vocês são responsáveis pelo que me tornei. Vocês são inventores de mim. 

Do seu pai,
Pedro

p.s.: 
Volto já, meus amores. Preparem os abraços.
p.s. 2: Tudo aqui me lembra vocês. Por isso a foto lá de cima. A foto aqui embaixo são as pessoas que falei e vocês – que preciso olhar sempre para acalmar o peito.

 

João,

pense na vida como uma série de repetições, com pequenas variações, nuances por vezes difíceis de identificar e distinguir, segundos absolutamente relevantes e horas simplesmente descartáveis, momentos para se guardar no peito e instantes para se apagar da memória, pense que tudo ao redor gira porque essa é a natureza do planeta que nos foi dado, mas que andar em círculos é tão ineficaz quanto andar em linha reta, desvie de sorrisos falsos e cruze desertos por um abraço, aceite a visita de quem te visita sem avisar e feche as portas para quem quer entrar quando você sai (lembre que o mundo dá voltas, aliás) – roda mundo, roda peão, roda moinho, roda-gigante – tome dramin e tome tento, porque essa vida trata de tentar nos fazer de tontos, mas nada, nada, filho, sobrevive a um salto certo, no instante apropriado, com pessoas que amamos ao redor.

Do seu pai,
Pedro

Irene,

há os que carregam o peso do mundo nas costas. Há os que se abstêm de carregar pesos, tatuam wanderlust e giram leves pelo mundo. Há os que têm o mundo em suas mãos. Há os que se deixam levar pelos pesares do mundo e choram escondidos. Há os que fazem do seu mundo um recanto onde tudo flutua. Há os que esperam, há os que vão. Há os que veem, há os que somem. Há os que fogem para fora e os que fogem para dentro. Há os que respiram; há os que não sabem fazer pausas.  Há os que desistem. Os que resistem. Os que insistem. Os que persistem. Os que existem. Há, filha, dentre nós, todos. E há muitos, incontáveis. Uns mais próximos, outros distantes. Mas aqui escrevo para falar dos que estão dentro de nós. Nos habitam de forma definitiva – pela mistura do nosso dna, da nossa construção existencial, espiritual, emocional. Esse que está em nós, por vezes, é mais de um. Quando isso acontece, filha, é o mundo lá fora, sem peso algum, flutuando em torno de nós – e nos dando um recado precioso. De que a vida se reinventa em vida. De que a gente pode, deve, precisa acreditar que, algumas vezes, o Universo que nos rege está dentro de nós. Quando isso acontece, a mágica está feita. E, sim, há mágica nessa foto – onde vemos a sua madrinha com quatro crianças.

Do seu pai,
Pedro
 

 

 

 

Irene,

vaca ou gato, aqui estão. Que indecisão, esse sapato. Porque um tem as orelhas charmosas, o outro tem um olho malhado – fora que um combina com o céu, outro com o caminho asfaltado. Poderia ter escolhido nenhum dos dois, saído de – sei lá – botas de rinoceronte. Mas ia se arrepender no próximo passo, bem em cima da ponte. Vai que arrependimento mata? Mata nada. Volta, pensamento, sai do descompasso. Direita, esquerda, qual mão você escolhe, pai? – pergunta. E logo em seguida põe na frente as mãos – e junta.  Que responsabilidade enorme, a minha, escolher seu caminhar. Posso não, filha, descruza essas mãos e me dá um abraço, vem cá. Deixa te contar um segredo; uma coisa para não esquecer de lembrar mesmo quando nem pensar. Os teus pés devem te levar, do jeito que você quiser, por onde quer que você vá. Saiu galopante, leve e saltitante. Usava o gato à esquerda, a vaca do outro lado. E debaixo dos seus pés, o chão parecia feliz e realizado.
 

Do seu pai,

Pedro

 

Teresa,

você não sabe o que é uma tevê. Não sabe para que serve. Olha para aquele retângulo inútil na parede, tenta pressionar o que supõe ser pressionável, leva giz de cera e risca a tela, passa uva, pera e pêssego nas laterais para testar se algo acontece, já jogou água gelada e a reação não veio. Acorda! Nada. Você não se decepeciona, nem se irrita. Apenas desiste do que não existe. Age diante do que não reage. Volta para o que interessa, onde os assuntos úteis realmente estão. No quintal, na sala, no meio dos brinquedos largados, na cozinha – de onde sai um cheiro que te interessa, mais um assunto novo, no corredor, no banheiro, a casa é divertida demais. Pede para ver os cachorros que latem na rua. Segura sozinha seu copo d’água. Corre para testar o equilíbrio sobre o chão meio escorregadio. Aprende no entorno imediato tantos assuntos novos que mal dorme à noite, sonhando sem parar, aprendendo, registrando tudo que se passou no dia. Nunca fomos radicais com a questão, mas desde a mudança de endereço, a empresa que deveria instalar internet e serviços de tevê não foi. Não fez falta, nesses sessenta dias. O conteúdo dos canais infantis brasileiros é lastimável. Elitista. Superficial. Repetitivo. Ofensivo. Tem mais, tem o melhor lado dessa história em capítulos bem escritos: estamos brincando (ainda) mais, descobrindo livros novos, voltamos a tocar violão e ukulele como uma banda desorganizada, dançar virou rotina, pular corda um momento épico, deitar na grama um hábito diário. Você entendeu as plantas, a chuva que cai no quintal, o sol que esquenta o chão e faz com que precise voltar para o seu quarto, calçar um chinelo e voltar à brincadeira. O controle remoto virou uma espada inofensiva (não liga nada). O cabo do aparelho de tevê serve, agora, para puxar um cachorrinho de plástico (funciona muito bem). A empresa que instala o serviço foi contactada por sua mãe e fizemos o cancelamento definitivo. Já experimentou passar purê na tela, filha? Chama João e Irene, eles te ajudam nessa. 


Do seu pai,
Pedro

Irene,

algo estarrecedor aconteceu hoje, 20 de fevereiro de 2015, no meu e-mail. Um texto enviado por um rapaz equivocado me tirou um pouco da fé que procuro ter na humanidade. Tirou do chão que havia sob meus pés a confiança nas coisas que podem e devem mudar nas relações humanas – nesse caso, no que tange às relações entre homens e mulheres, mais especificamente. Deixa eu voltar duas casas para que no futuro, ao ler, você entenda o contexto. Estou fazendo um trabalho, filha, fotografando nus femininos. Um registro de mulheres que têm algo relevante a dizer e que através da sua voz e do seu corpo delimitam a fronteira invisível do respeito. As fotos delas vão para um site e também para um perfil no Instagram, junto com um texto que escrevo. Os ensaios duram em média duas horas e meia: duas de conversa, meia de cliques. Porque ao ouvi-las, entendo em que momento da vida estão e – agora sim o intuito final do projeto – que mulher é essa que, em 2015, caminha para o futuro. Saber que lugar é esse que elas querem chegar. Até agora foram mais de trinta mulheres e uma lista de espera bem grande. Hoje, uma das mulheres que seria fotografada, amanhã, cancelou o seu ensaio. Na véspera. Ela me disse que o namorado criou a maior confusão quando soube do ensaio e isso se estendeu até hoje à tarde. Já ele me mandou um e-mail que dizia que eu “deveria contactar os parceiros das mulheres para saber, antes, se eles autorizavam suas namoradas a posarem nuas”.  Ainda perguntou: “se fosse a sua mulher?”. Mandei o link do ensaio da sua mãe para ele. Olha, filha: JAMAIS deixe um homem pensar que ele é dono do seu corpo. JAMAIS. Seu corpo, esse presente que o Universo deu, é só seu. Faça com este corpo o que VOCÊ MESMA quiser. NUNCA deixe que seu companheiro ou companheira mande nisso. Pense no seu corpo como algo único, raro: só você tem. Ninguém mais. O corpo é a capa da alma e nos protege dos mais violentos ventos. Se um dia você quiser posar nua, filha, tem o meu apoio. E se não quiser, tem o meu apoio também. Agora, se um dia você namorar um babaca, filha, vou infernizar a sua vida.

Do seu pai,
Pedro