Há uns anos, encontrei um taxista no ponto que fica na interseção entre as ruas Delfina, Purpurina, Mourato Coelho e João Miguel Jarra. Logo na primeira corrida, entre a Vila Madalena e o Jardim Paulista e no meio de uma tempestade infernal, com motoristas buzinando para o granizo que caía – como se a fúria resolvesse a questão, ele disparou: "são os mesmos que reclamam do calor, seu Pedro".
Seu Josué, filho dos caruaruenses Marinês e Homero, me deu muitas caronas. Em dias de mau humor, tédio, tristeza. Mas também em percursos de felicidade, conquista, leveza. Acompanhou meus pensamentos e, quando eu não sabia direito o que dizer, ele vinha com algo. Seu Josué andava com as janelas abertas para falar para o mundo engarrafado o que habitava o seu mundo íntimo, silencioso, sem buzinas. Seu Josué sempre fui eu. Mas sempre fingi que ele fosse outro. Para ser mais verdadeiro que qualquer personagem ficcional.

Este é Josué.

Este é Josué.

Abaixo, alguns textos que publiquei na minha conta pessoal do Facebook, sempre atribuindo a autoria ao motorista imaginário. E fica aqui o meu pedido de desculpas a quem fui reticente e jamais respondi sobre como encontrar Josué. Me perdoem. Josué diria que foi uma contramão, talvez. Mas que, ainda assim, chegamos ao destino final.

 

Pergunto sobre o segundo turno.

– Essa eu vou ficar devendo, seu Pedro. Não sou cientista político. Nem tenho conta no Facebook.

 

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– Ele está certo, seu Pedro. Tem mais é que fazer ciclovia mesmo. E passar de bicicleta por cima desse pensamento autocêntrico que estacionou aqui em São Paulo.

 

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– Voltei a acreditar no amor, seu Pedro. Por mais que tenha becos sem saída, buracos na rua, iluminação precária, sinalização confusa. Por mais que às vezes pareça que nunca vamos chegar, porque está tudo congestionado e chove. Por mais que as pontes não sejam os melhores meios de ligar duas ilhas. Voltei a acreditar no amor porque conheço bem o trânsito.

 

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Ainda estava escuro, aqui pela Vila. Dei a sorte de encontrá-lo no ponto. Dei boa noite (e bom dia), dei o destino: Congonhas. Olhou pelo retrovisor, leu meu pensamento em voz alta e falou baixinho, como se não quisesse que eu ouvisse.

– Saudade é esse silêncio que só a madrugada faz. Vai amanhecer, seu Pedro. Vai amanhecer.
 


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– Atendo no ponto, atendo no celular, atendo no aplicativo. Mas também me sinto na obrigação de atender na rua, seu Pedro. Um passageiro na calçada é como um grande amor. Pode ser o primeiro, pode ser o último.

 

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Dou a sorte de encontrá-lo no ponto. Conversamos não mais que dois minutos. Sobre o seguro que ainda não pagou o seu carro. Sobre o final turbulento do casamento. Sobre o trânsito infernal de São Paulo. E ele me acorda.

 

– Eu penso em cada rua como uma artéria, seu Pedro. Quer carona?

 

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– Eu não era nascido em 1950 e não verei outra Copa do Mundo no Brasil, seu Pedro. Por que me privaria de dizer em voz alta o quanto estou admirado e feliz com o que está acontecendo? Por causa dos meus amigos do ponto de táxi que reclamam do país, mas gostam do Maluf?

 

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– Os que vaiam são os mesmos que buzinam, seu Pedro.

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Encontro com ele na descida da Purpurina, quase esquina com a Mourato.

– Meu amigo, o que houve? Quanto tempo.
– Bateram no meu carro, seu Pedro. Perda total.
– Puta merda. E você?
– Machuquei o ombro. Mas o problema nunca é a lataria, seu Pedro. É o que está por baixo dela.

p.s.: Tomei um café com ele e aprendi um pouco mais sobre as nossas ruas, avenidas e, principalmente, becos sem saída.


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Finalmente – achei que nunca fosse acontecer – ele fala de política comigo.

– No trânsito é simples, seu Pedro. Questão de escolha para onde a gente quer ir e ponto final. Mas na questão política, complica. Esquerda é quando você ainda não chegou ao poder. Direita é quando está lá.
 


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Eu vinha de cabeça baixa, quase o perdi; mas ele me acorda – do celular – com um bom dia efusivo. Vejo que está arrumando o porta-malas, dedicadamente.

– Fazendo a faxina, meu amigo?

– Ah, seu Pedro. Se aquilo que fica escondido não estiver arrumado, o que está visível também não está.
 


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Entro no carro dele e percebo que o violão voltou a ocupar seu antigo posto, no banco da frente.
– Voltou a estudar violão, meu amigo?
– Ah, seu Pedro. Tempo para fazer as coisas, a gente cria. O que não dá para inventar é vontade.
 


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– Você não usa o Waze?
– Não, senhor.
– Nem o Google Maps?
– Não.

Silêncio.

– Eu já sou um serviço de buscas, seu Pedro. Se não conseguir achar os meus próprios caminhos, mudo de destino.

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Me deu boa tarde com a notícia. A separação. Perguntei por que não havia me dito nada nos últimos meses de crise, por que não conversou, por que não dividiu a sua angústia.

– Seu Pedro, você já notou: eu não buzino. Ou acelero, ou freio. Buzinar não muda meu caminho.


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– Meu amigo, bom dia. Que bom encontrá-lo. Estou preocupado. Acho que ando te expondo demais. Converso contigo, aprendo um bocado, mas aí vou lá no Facebook e posto suas frases. Tem gente que já te ama. Que diz que quer te conhecer. Gente que fala que você é um filósofo.
– Filósofo, eu? Seu Pedro, diga a eles que só sei nadar no raso.

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– Trabalho num dos piores lugares do Brasil. A rua. Por incrível que pareça, o que devia ser o lugar público mais respeitado – cheio de relações humanas, onde não há distinção de idade, gênero, cor – é justamente onde acontece a barbárie, seu Pedro. A rua é o Brasil nu. Arrastado. Atropelado. Violentado. Despedaçado, estilhaçado, destroçado. Sendo jogado pela janela, o Brasil-bituca. O país que não sabe silenciar, só buzinar. Que não enxerga listras brancas; passa por cima. Que não diferencia o verde do vermelho; daltônico e míope. Onde se cospe fumaça no indivíduo, toca-se fogo no coletivo. O país na contramão. Em alta velocidade. Pronto para atingir, em cheio, um poste.

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- Reclamam de vandalismo, seu Pedro. Mas furam fila no supermercado, passam o sinal vermelho, jogam lixo na calçada, bebem antes de dirigir, não pagam imposto.

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Passo pela calçada oposta. Ele acena e me chama. Pergunta sobre o nascimento de Teresa. Mal começo a contar, ainda do outro lado da rua, e o telefone do ponto começa a tocar. Bem alto. Paro de falar e pergunto.

– Você não vai atender?
- Não, senhor.

Atravesso. Sento no banco dos taxistas. Conto tudo, cada momento. O telefone do ponto chamou pelo menos quatro ou cinco outras vezes. Ele não atendeu nenhuma delas. Uma hora depois, já concluído o relato, levanto para ir embora. Antes, pergunto.

– As corridas não vão te fazer falta?
– O que faz falta é gente sem pressa, seu Pedro. Dê os parabéns a dona Luanda pelo parto. Saio rindo e chorando. Desta vez, pelo mesmo lado da calçada.

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Antes de entrar no táxi, ele pede para eu, discretamente, olhar o velho que passa.

– Tá vendo esse aí, seu Pedro?
- Sim, quem é ele?
- A gente o chama de "Velho Amor".

Acho engraçado e pergunto o motivo do apelido. Ele responde, feliz com a minha pergunta.

– Ele passa todo dia pelo ponto, mas nunca soubemos o seu nome. Ele esquece das coisas, de um dia para o outro. Ou seja: toda manhã, é um recomeço. A gente se apresenta de novo, pergunta se ele quer ajuda para ir para casa, ou para carregar o pão, ou para atravessar. Ou simplesmente dá um sorriso pro velho desconhecido e deseja um bom dia. De novo. Que nem ontem.

Deseja um bom dia para o velho e entra no carro.

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– Fé é isso aqui, seu Pedro. Olhe. Fé é poder entrar naquela próxima à direita ou na próxima à esquerda, tanto faz, mas ter a certeza absoluta que há uma rua para a gente seguir. Para onde vamos mesmo?

[Calei – porque precisava. Apontei, apenas.]

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– O senhor estava esperando há muito tempo? Me desculpe, estava na padaria (interrompi, antes que ele desatasse a pedir desculpas).
– Bom dia, meu amigo. Não precisa se desculpar.
– Não gosto de fazer as pessoas esperarem, seu Pedro. Toda espera é uma perda irreversível de algo que poderia ter acontecido naquele mesmo instante. E os desencontros maiores acontecem em segundos.

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- E os projetos, seu Pedro? O senhor tá sempre fazendo projetos, né?
– É, meu amigo. Muitos.
- E o senhor tá feliz?
- Muito. Amando fazer esses projetos que entraram agora.
- Amor é que nem batida de carro, né? Você se distrai na esquina e bum. É ele.

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- E está tudo bem na casa do senhor? Sua esposa, o João, a Irene.
– Está tudo ótimo, meu amigo. Sabe que estamos esperando uma filha? Teresa, a terceira, vem aí.
– Amor é para quem pratica, né, seu Pedro?

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Me recebeu exclamativo.

– Bom dia, seu Pedro!
– Bom dia, meu amigo. Está com uma cara feliz. Está amando?
– Isso eu ainda não sei, não, senhor. A gente só descobre que era amor quando ela já está de costas, indo embora pela calçada.

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- São os mesmos que, no verão, reclamam do calor, seu Pedro.

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– E como foi a viagem?
– Uma delícia, Josué. Muitos museus, galerias, comidinhas boas. Descobertas, redescobertas, rupturas, passos adiante. Não fosse por meus filhos, não voltaria.
– A gente nunca volta de uma viagem, seu Pedro.

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– Ele diz que aprende mais se machucando do que sendo feliz. Devia pular de janelas mais altas. Quebrar o braço e ficar com dor de cotovelo é para os fracos.

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– São Paulo é para todo mundo, seu Pedro. [parou, pensou, deu seta, entrou à esquerda] Mas não é para qualquer um.


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– Esse pessoal reclama do Big Brother, mas passa o dia no Facebook.