A difícil escalada de um pensamento que não sabia voar.

[foto: Alice Valgas] [todos os direitos reservados ao autor da foto]

[foto: Alice Valgas] [todos os direitos reservados ao autor da foto]

Subiu e subiu rapidamente, por entre artérias, rasgando tudo o que não fosse útil no instante. Perdia –e prendia– a respiração bombeando o peito, o coração saindo pela boca, a boca calada sem falar o que devia, desejando apenas uma saída de emergência para fugir de si próprio. Mas pensamento teimoso não foge, não escapa, não cede. Sobe. Pensamento teimoso sobe.


– Desculpa por ontem.

Pensou alto. Enquanto subia, a frase o perfurava, furava a fila e passava à frente de todas as outras frases prontas que gostaria de dizer ao chegar ao topo. Pensava, ele próprio, na lista de coisas intermináveis a serem ditas. Vamos morar em Paris? – pensou nisso; você é linda – pensou também; beijo – finalmente, pensou. Neste último momento, percebeu que havia chegado onde queria. O topo, a mente, o degrau mais alto para quem, como ele, era um pensamento. Vou sair. Antes de concretizar sua fuga da imaginação, entretanto, olhou para baixo. Vou sair. Viu nuvens aos seus pés. Estava roto. Seu mundo estava roto. Nuvens aos pés. Um beijo, Paris, desculpas, que linda. Tinha ido na direção oposta, era agora um pensamento enraizado. Quis voltar. Quis voar. Talvez não fosse capaz. Amor – pensou. Pensamento teimoso não foge, não escapa, não cede. Beijou as nuvens aos seus pés; e voou.

Esqueço, Arlete.

[foto: Swã Medeiros] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

[foto: Swã Medeiros] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

Há muito não falo de amor – nem aos seus pés, aos pés dos seus ouvidos; ou por manuscritos, ou em e-mails enviados no meio do dia, como de costume. Ainda que desconfies que a culpa seja do tempo, do nosso tanto tempo, estás enganada. Sou eu, o culpado. Não por desamor, como poderias pensar no instante da frase antes desta, mas pela seguinte. Por esquecimento. Do mesmo modo que esqueço de tomar um reforçado café da manhã, pois o dia será longo e terei que andar de casa até o ponto de ôninus e em seguida os caminhos que trilham os subterrâneos acinzentados do metrô paulistano. E enfraqueço, antes do meio-dia, para só assim lembrar do que dizes, para que o café da manhã seja reforçado porque virá um longo dia. Por esquecimento, igual ao que tenho das datas que teimam em fugir do meu calendário. Datas importantes só aparecem, a mim, no dia exato em que não são. Um dia antes – lembro que será amanhã. Um dia depois, que esqueci que era ontem. No dia, justo no dia, nada me acontece senão um clarão agendado. Esqueço, Arlete. Um destes anos, não me recordo qual, esqueci do nosso aniversário de casamento pela primeira e única vez. Você lembra. Recordo da sensação. O peito aceleradamente a esquentar, a certeza de morte iminente, o quase desmaio – no momento em que, à mesa de jantar, ouvi a sua voz dizer “sim, é hoje”. Sim, é hoje. Sim, é hoje. As pauladas do eco, a torturar o silêncio repetidamente, como gotas que caem na cabeça até que enlouqueçamos. Esqueci de buscá-la no aeroporto às 15 horas. Esqueci de beijar sua testa antes de dormir, na noite em que também esqueci a tv ligada e esqueci que a chuva iria molhar o tapete da sala com aquela janela aberta que deixei. Esqueci de abrir a porta, mas passou. Você passou, entrou, por si. Esqueci a letra da música que, de tão nossa, tocou em todos os seus aniversários, desde que me lembro de algo, de tudo. Esqueci de tomar remédios, você me deu. Esqueci de cobrir os pés, você me aqueceu. Esqueci de pedir desculpas, mas o seu perdão sempre foi uma prontidão, você vigia, alerta, insone. Esqueci de guardar as fotos, de fechar os armários, de gravar seu anel com minhas próprias iniciais. Dos meus maiores esquecimentos e vergonhas, este: guardei as chaves que me abriam para você em algum lugar que há tempos não sei mais onde fica. Distraído, esqueci que quanto mais a gente caminha, mais a morte se aproxima. Desculpe. Agora vá, Arlete. Descanse em paz. Jamais a esquecerei.

Água inflamável.

[foto: Viviane Sarmento] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

[foto: Viviane Sarmento] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

– Acho que ele me dizia assim. Repetidamente, em versos distintos, acho que ele me dizia, parecia dizer, sem a clareza necessária para que eu diga que, certamente, ele me dizia assim. Parecia dizer. Vem. Pula. Entra. A água está fria. É fundo. Turvo. Mas estou aqui, vem. Dos medos que poderemos sentir, ainda haverá um maior. Deixe que falo dele mais tarde. Vem. Pula. Entra. Já não cabem mais nessa gaveta os papéis que compõem o seu repertório, peças inteiras, minuciosamente orquestradas – fui maestra, hoje quero ser conduzida, ouça. Gaveta aberta ao vento, deixa ir, deixa ir, amor. Essa você. Deixa ir. Quadros propositadamente – e milimetricamente – desarrumados que agora habitam a sua parede que, até dia desses, estava branca – olha como era linda a parede branca, como ela respirava mais, ela e eu, preciso respirar mais, ele parece me dizer, estou pegando fôlego para voar mais, estou voando, leve, nuvens brancas, as turbulências ficaram para trás. Fôlego para voar e ele me chama para um mergulho. Fico sem resposta. Não precisamos de respostas o tempo inteiro. Vem. Pula. Entra. Meu telefone chama. A amiga. Peço licença. Estou disponível para ela. Sempre. Ela conta do incêndio no relacionamento, minhas palavras baixam as chamas. Desligamos. Ela nunca me pergunta como estou. Confesso, dolorida. Ele fica sério. Sorrio aquele sorriso, um samba-sorriso, sorriso que ocupa o olhar inteiro, dele. Nada vejo. Estamos sós aqui, você notou? Perguntei, notei. Por isso quero que você mergulhe, ele parece me dizer. Posso fazer uma foto sua diante dessa imensidão de nada? Pode. Mas não é exatamente nada. É água. Vem. Pula. Entra.

Depois que me conta o sonho, você abre os olhos. Estavam fechados. Você já se viu de olhos fechados? Penso, não digo. Depois que me conta o sonho, parece que vai perguntar algo, mas silencia. Você aprendeu que esse silêncio traz as melhores respostas. Você quer respostas para tudo. Você precisa de dúvidas. Você tem dúvidas. Você quer coragem. Upa, neguinha. Valentia, posso emprestar. Liberdade só posso esperar. Canto baixinho. Que mergulho está sendo representado nesse sonho, você percebe? – pergunto em silêncio. Você responde sem que eu pergunte. Mergulhar aqui é viver algo novo, incerto, profundo. E a entrega mais sublime seria essa. Não precisar compreender.

Água fria, piscina funda, turva, entendo – digo. E ele, o que quer? Pergunto. Mas já não há mais tempo, desculpe, nossa sessão terminou. Até próxima semana. Despedimo-nos.

Depois que ela sai, depois que seus passos somem, o terapeuta pensa na relação de transferência que se forma entre os dois. Gostaria de ser o homem da piscina. Vem. Pula. Entra. E a imagina, nua, entrando na água fria, funda, turva. 

Esconde-esconde.

[foto: Henrique Resende] [todos os direitos da imagem reservados ao autor]

[foto: Henrique Resende] [todos os direitos da imagem reservados ao autor]

Em algum momento, a rota havia tomado outro rumo; virou rotina. Coisa pequena, rotina. Leia a palavra como se fala: rotina. Ouça como se escreve: rotina. É já diminuta, coisica, quase nada, diante de uma rota. Rota vai longe. Rotina: foi, pronto, acabou. Tinham se amado tanto durante aquele pouco tempo, era tão intenso, uma brincadeira leve de esconde-esconde, um no outro, escondido, lá dentro. Ela, nele, quase sem respirar, para não ser percebida. Ele, nela, nos recantos mais noturnos – gostava de esconder-se no umbigo dela, pensava mais nela, como ela, gostava das coisas que ela escrevia e pintava e recitava e dançava. Ela se escondia no peito. Ele nos lugares incertos onde ninguém o encontraria quando ela chorasse em segredo. Agora, a rota estava perdida, seu caminho único estava plural: seus caminhos. Podia não ser o fim, mas era tão triste quanto. E veio assim, do nada, feito chuva que se espera em tempo de seca. O azul. O clarão. O cinza chumbo. A tempestade. A rotina, pequena, consumia os dois e desde então eram o mais ordinário tipo de casal, que cometia as mais ordinárias fugas da nova realidade. Até viajavam sem as crianças “para namorar” como diziam, mas nada. Namoravam modestamente e voltavam pequenos – conseguiam guardar as memórias da viagem num frasco. Antigamente, não. Memória de viagem, só em baú. Grande. Com cadeado e tudo. Ainda se beijavam. Mas também beijavam o cachorro. Ainda se abraçavam. Mas abraçavam colegas de trabalho. Ainda se olhavam. Mas olhavam garçons com a mesma intensidade. Saíram da rota, pegaram o equivocado atalho da rotina, sem saber onde ia dar. Ela queria aquele outro tempo com ele. Ele queria o tempo dela de volta. Não se diziam. Até que numa dessas encruzilhadas inesperadas, uma mensagem no Whatsapp.

[11] 94163.9910

Obras do destino.

[foto: Raíssa Bouças] [todos os direitos da imagem reservados ao autor]

[foto: Raíssa Bouças] [todos os direitos da imagem reservados ao autor]

Nós gostávamos de dormir abraçados. Por não haver verão, não havia a minha repulsa natural, se houvesse calor – odiava calor, ela sabia. Ela sabia de quase tudo – e tudo aquilo que não sabia, era desnecessário que soubesse. Acordamos assim, abraçados. Diferente de como havíamos dormido. A noite nos remexia, acho, nos meus sonhos e pesadelos, sequências de pensamentos desconexas. Conta para pagar, peixe-boi manso, nuvem rosa, chopp claro, por favor, as mãos da mulher do amigo, lá vem a Copa, que show do Capital Cities, saudades de Hugo – ele está no Panamá?, era tanto pensamento que mal dava para recordar algo que pudesse fazer sentido para o terapeuta na quarta à noite. Era sábado. Cedo.

– Você poderia mexer menos, à noite.

Ri e dei bom dia. Bom dia, amor, eu disse, tentando ser mais suave que o olhar dela.

– E dormir de camisa. Está frio.

– Você reclama, mas abre as janelas no fim da tarde, quando chega, e não as fechas antes de deitar.

– Calorento demais, mexe demais, assiste tevê até sei lá que horas.

– Você sabia que dorme no meio das frases?

– Eu?

– Enquanto tenta me explicar algo. Simplesmente desliga.

– Não tomo remédio para dormir, veja que bênção.

– Isso é uma crítica? Tomo remédio porque o terapeuta disse que

– que essa posição na empresa te tira o sono. Você engordou.

Levemente, ainda com carinho, tirou sua mão da minha nuca, aquele sinal de que precisa, agora, gesticular.

– Você está lendo pouco.

– Mas você continua reclamando muito. O que leu esse mês?

– Pensa comigo. Ler pouco, comer rápido, ver tevê até tarde, trabalhar nos finais de semana, mesmo quando a gente vai para a praia com os amigos.

– Daqui a pouco você vai dizer que não engravida porque não estou em casa.

– Penso nisso.

– Vamos ao cinema hoje?

– Não posso. Tenho jantar com a minha mãe.

Silencio, espero o bispo sair em direção ao meu cavalo.

– Quer saber? Vamos para o cinema, sim. Minha mãe que se foda, hoje. Quero ficar mais tempo com você. Não tem trabalho, esse fim de semana?

– Teria. Mas não vou.

– Você lavou os pratos ontem?

– Não.

– Puta merda.

– Gravei todos os álbuns de Caetano no seu computador.

– Ontem?

– Enquanto você dormia com a tevê ligada.

– Lembra quando a gente se conheceu? Você nem tinha barba.

– Você tinha apenas uma tatuagem.

– Eu queria ser publicitária.

– A gente tinha viajado pouco.

– Istambul foi incrível. Berlim foi mágico. Londres, inesquecível. Paris, Paris eu sofri de taquicardia da beleza urbana. Crônico. Bogotá, Santiago, La Paz, aquela viagem também foi inesperadamente fantástica.

– Mas aqui é melhor.

– Aqui poderia ser melhor.

– O melhor que temos é essa janela.

Ela sorriu, voltou a mão ao lugar onde estava, disse que me amava, disse um suave bom dia, meu amor. Continuamos deitados, abraçados, olhando a cidade em obras, lá fora – enquanto nos construíamos aqui dentro, por dentro, mais uma vez.