Pensou alto.

[foto: Beto Figueiroa] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

[foto: Beto Figueiroa] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

 

Pensou em música. Ouviu. Em foto. Viu. Pensou em comer, a fome bateu – mas logo veio uma mão santa a depositar um sabor precioso de panela, bem diante do seu nariz de perdigueiro. Uma noite, já tarde, insone, pensou na madrugada. Abriu os olhos, o sol nasceu, pensou em chuva, nublou a cidade que ainda esperava pelo outono, pensou em guarda-chuva, estiou. Pensou em ler. Mia. Pensou em jogar. Baralho. Pensou em amor. Ela. Sexo, Gabriela. Em banana, queijo e açúcar; canela.

A sua cidade estava espremida. Entre o mar e a areia, arrecifes para conter as ondas. Entre a areia e o parque, arranha-céus para conter o vento. Entre o asfalto e o morro, a miséria para conter a vida. E ele não continha-se em revisitar as suas memórias, naquele instante derradeiro. Lembrou. Quando era pequeno e tudo parecia tão grande, assustadoramente alto e volumoso, achava normal que fosse assim e as pessoas, descontentes, se contentassem com tão pouco. Cresceu achando a normalidade o melhor que poderia ter para si, até entender que não era normal que pensasse em gol e a bola entrasse, sempre. A mãe encomendou reza, macumba, missa, batismo, palestra, workshop, procissão, programa de televisão, todo tipo de merda alimentar que pudesse salvar o filho maluco e poderoso: osso de galinha, vitamina de amêndoa, manga verde chupada no pé, sem o uso das mãos – o que os levava a uma cena curiosa, o filho na ponta dos pés, todo esticado para morder a fruta, enquanto a mãe misturava torcida – vai, menino – e esporro – vai, menino! – para estimular o coitado. Coitado. Não adiantava. Ele pensava madura e a manga caía aos seus pés, caroço duro, coração mole da mãe, que chorava e ele pensava lenço e ela sorría sem razão, igual a ele, sem razão.

Estava lá, quase consciente, quase não, pensava pouco e quase nada acontecia, só uma mistura torta sonora, um samba e uma oração tocando no alto do morro.

 

Minha senhora da Conceição

Dá tua mão

Me leva

Devo

Não: eu nego

E renego

Negocio minhas dúvidas

Pela mão, minha mãe Rainha

Que tanto me condenam

 

E a cabeça não conseguia pensar em cura, sono, alívio, nada que se apresentasse como solução para a dor de quem fica. Pensou em morte.