Esconde-esconde.

[foto: Henrique Resende] [todos os direitos da imagem reservados ao autor]

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Em algum momento, a rota havia tomado outro rumo; virou rotina. Coisa pequena, rotina. Leia a palavra como se fala: rotina. Ouça como se escreve: rotina. É já diminuta, coisica, quase nada, diante de uma rota. Rota vai longe. Rotina: foi, pronto, acabou. Tinham se amado tanto durante aquele pouco tempo, era tão intenso, uma brincadeira leve de esconde-esconde, um no outro, escondido, lá dentro. Ela, nele, quase sem respirar, para não ser percebida. Ele, nela, nos recantos mais noturnos – gostava de esconder-se no umbigo dela, pensava mais nela, como ela, gostava das coisas que ela escrevia e pintava e recitava e dançava. Ela se escondia no peito. Ele nos lugares incertos onde ninguém o encontraria quando ela chorasse em segredo. Agora, a rota estava perdida, seu caminho único estava plural: seus caminhos. Podia não ser o fim, mas era tão triste quanto. E veio assim, do nada, feito chuva que se espera em tempo de seca. O azul. O clarão. O cinza chumbo. A tempestade. A rotina, pequena, consumia os dois e desde então eram o mais ordinário tipo de casal, que cometia as mais ordinárias fugas da nova realidade. Até viajavam sem as crianças “para namorar” como diziam, mas nada. Namoravam modestamente e voltavam pequenos – conseguiam guardar as memórias da viagem num frasco. Antigamente, não. Memória de viagem, só em baú. Grande. Com cadeado e tudo. Ainda se beijavam. Mas também beijavam o cachorro. Ainda se abraçavam. Mas abraçavam colegas de trabalho. Ainda se olhavam. Mas olhavam garçons com a mesma intensidade. Saíram da rota, pegaram o equivocado atalho da rotina, sem saber onde ia dar. Ela queria aquele outro tempo com ele. Ele queria o tempo dela de volta. Não se diziam. Até que numa dessas encruzilhadas inesperadas, uma mensagem no Whatsapp.

[11] 94163.9910