Água inflamável.

[foto: Viviane Sarmento] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

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– Acho que ele me dizia assim. Repetidamente, em versos distintos, acho que ele me dizia, parecia dizer, sem a clareza necessária para que eu diga que, certamente, ele me dizia assim. Parecia dizer. Vem. Pula. Entra. A água está fria. É fundo. Turvo. Mas estou aqui, vem. Dos medos que poderemos sentir, ainda haverá um maior. Deixe que falo dele mais tarde. Vem. Pula. Entra. Já não cabem mais nessa gaveta os papéis que compõem o seu repertório, peças inteiras, minuciosamente orquestradas – fui maestra, hoje quero ser conduzida, ouça. Gaveta aberta ao vento, deixa ir, deixa ir, amor. Essa você. Deixa ir. Quadros propositadamente – e milimetricamente – desarrumados que agora habitam a sua parede que, até dia desses, estava branca – olha como era linda a parede branca, como ela respirava mais, ela e eu, preciso respirar mais, ele parece me dizer, estou pegando fôlego para voar mais, estou voando, leve, nuvens brancas, as turbulências ficaram para trás. Fôlego para voar e ele me chama para um mergulho. Fico sem resposta. Não precisamos de respostas o tempo inteiro. Vem. Pula. Entra. Meu telefone chama. A amiga. Peço licença. Estou disponível para ela. Sempre. Ela conta do incêndio no relacionamento, minhas palavras baixam as chamas. Desligamos. Ela nunca me pergunta como estou. Confesso, dolorida. Ele fica sério. Sorrio aquele sorriso, um samba-sorriso, sorriso que ocupa o olhar inteiro, dele. Nada vejo. Estamos sós aqui, você notou? Perguntei, notei. Por isso quero que você mergulhe, ele parece me dizer. Posso fazer uma foto sua diante dessa imensidão de nada? Pode. Mas não é exatamente nada. É água. Vem. Pula. Entra.

Depois que me conta o sonho, você abre os olhos. Estavam fechados. Você já se viu de olhos fechados? Penso, não digo. Depois que me conta o sonho, parece que vai perguntar algo, mas silencia. Você aprendeu que esse silêncio traz as melhores respostas. Você quer respostas para tudo. Você precisa de dúvidas. Você tem dúvidas. Você quer coragem. Upa, neguinha. Valentia, posso emprestar. Liberdade só posso esperar. Canto baixinho. Que mergulho está sendo representado nesse sonho, você percebe? – pergunto em silêncio. Você responde sem que eu pergunte. Mergulhar aqui é viver algo novo, incerto, profundo. E a entrega mais sublime seria essa. Não precisar compreender.

Água fria, piscina funda, turva, entendo – digo. E ele, o que quer? Pergunto. Mas já não há mais tempo, desculpe, nossa sessão terminou. Até próxima semana. Despedimo-nos.

Depois que ela sai, depois que seus passos somem, o terapeuta pensa na relação de transferência que se forma entre os dois. Gostaria de ser o homem da piscina. Vem. Pula. Entra. E a imagina, nua, entrando na água fria, funda, turva.