Obras do destino.

[foto: Raíssa Bouças] [todos os direitos da imagem reservados ao autor]

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Nós gostávamos de dormir abraçados. Por não haver verão, não havia a minha repulsa natural, se houvesse calor – odiava calor, ela sabia. Ela sabia de quase tudo – e tudo aquilo que não sabia, era desnecessário que soubesse. Acordamos assim, abraçados. Diferente de como havíamos dormido. A noite nos remexia, acho, nos meus sonhos e pesadelos, sequências de pensamentos desconexas. Conta para pagar, peixe-boi manso, nuvem rosa, chopp claro, por favor, as mãos da mulher do amigo, lá vem a Copa, que show do Capital Cities, saudades de Hugo – ele está no Panamá?, era tanto pensamento que mal dava para recordar algo que pudesse fazer sentido para o terapeuta na quarta à noite. Era sábado. Cedo.

– Você poderia mexer menos, à noite.

Ri e dei bom dia. Bom dia, amor, eu disse, tentando ser mais suave que o olhar dela.

– E dormir de camisa. Está frio.

– Você reclama, mas abre as janelas no fim da tarde, quando chega, e não as fechas antes de deitar.

– Calorento demais, mexe demais, assiste tevê até sei lá que horas.

– Você sabia que dorme no meio das frases?

– Eu?

– Enquanto tenta me explicar algo. Simplesmente desliga.

– Não tomo remédio para dormir, veja que bênção.

– Isso é uma crítica? Tomo remédio porque o terapeuta disse que

– que essa posição na empresa te tira o sono. Você engordou.

Levemente, ainda com carinho, tirou sua mão da minha nuca, aquele sinal de que precisa, agora, gesticular.

– Você está lendo pouco.

– Mas você continua reclamando muito. O que leu esse mês?

– Pensa comigo. Ler pouco, comer rápido, ver tevê até tarde, trabalhar nos finais de semana, mesmo quando a gente vai para a praia com os amigos.

– Daqui a pouco você vai dizer que não engravida porque não estou em casa.

– Penso nisso.

– Vamos ao cinema hoje?

– Não posso. Tenho jantar com a minha mãe.

Silencio, espero o bispo sair em direção ao meu cavalo.

– Quer saber? Vamos para o cinema, sim. Minha mãe que se foda, hoje. Quero ficar mais tempo com você. Não tem trabalho, esse fim de semana?

– Teria. Mas não vou.

– Você lavou os pratos ontem?

– Não.

– Puta merda.

– Gravei todos os álbuns de Caetano no seu computador.

– Ontem?

– Enquanto você dormia com a tevê ligada.

– Lembra quando a gente se conheceu? Você nem tinha barba.

– Você tinha apenas uma tatuagem.

– Eu queria ser publicitária.

– A gente tinha viajado pouco.

– Istambul foi incrível. Berlim foi mágico. Londres, inesquecível. Paris, Paris eu sofri de taquicardia da beleza urbana. Crônico. Bogotá, Santiago, La Paz, aquela viagem também foi inesperadamente fantástica.

– Mas aqui é melhor.

– Aqui poderia ser melhor.

– O melhor que temos é essa janela.

Ela sorriu, voltou a mão ao lugar onde estava, disse que me amava, disse um suave bom dia, meu amor. Continuamos deitados, abraçados, olhando a cidade em obras, lá fora – enquanto nos construíamos aqui dentro, por dentro, mais uma vez.