Esqueço, Arlete.

[foto: Swã Medeiros] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

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Há muito não falo de amor – nem aos seus pés, aos pés dos seus ouvidos; ou por manuscritos, ou em e-mails enviados no meio do dia, como de costume. Ainda que desconfies que a culpa seja do tempo, do nosso tanto tempo, estás enganada. Sou eu, o culpado. Não por desamor, como poderias pensar no instante da frase antes desta, mas pela seguinte. Por esquecimento. Do mesmo modo que esqueço de tomar um reforçado café da manhã, pois o dia será longo e terei que andar de casa até o ponto de ôninus e em seguida os caminhos que trilham os subterrâneos acinzentados do metrô paulistano. E enfraqueço, antes do meio-dia, para só assim lembrar do que dizes, para que o café da manhã seja reforçado porque virá um longo dia. Por esquecimento, igual ao que tenho das datas que teimam em fugir do meu calendário. Datas importantes só aparecem, a mim, no dia exato em que não são. Um dia antes – lembro que será amanhã. Um dia depois, que esqueci que era ontem. No dia, justo no dia, nada me acontece senão um clarão agendado. Esqueço, Arlete. Um destes anos, não me recordo qual, esqueci do nosso aniversário de casamento pela primeira e única vez. Você lembra. Recordo da sensação. O peito aceleradamente a esquentar, a certeza de morte iminente, o quase desmaio – no momento em que, à mesa de jantar, ouvi a sua voz dizer “sim, é hoje”. Sim, é hoje. Sim, é hoje. As pauladas do eco, a torturar o silêncio repetidamente, como gotas que caem na cabeça até que enlouqueçamos. Esqueci de buscá-la no aeroporto às 15 horas. Esqueci de beijar sua testa antes de dormir, na noite em que também esqueci a tv ligada e esqueci que a chuva iria molhar o tapete da sala com aquela janela aberta que deixei. Esqueci de abrir a porta, mas passou. Você passou, entrou, por si. Esqueci a letra da música que, de tão nossa, tocou em todos os seus aniversários, desde que me lembro de algo, de tudo. Esqueci de tomar remédios, você me deu. Esqueci de cobrir os pés, você me aqueceu. Esqueci de pedir desculpas, mas o seu perdão sempre foi uma prontidão, você vigia, alerta, insone. Esqueci de guardar as fotos, de fechar os armários, de gravar seu anel com minhas próprias iniciais. Dos meus maiores esquecimentos e vergonhas, este: guardei as chaves que me abriam para você em algum lugar que há tempos não sei mais onde fica. Distraído, esqueci que quanto mais a gente caminha, mais a morte se aproxima. Desculpe. Agora vá, Arlete. Descanse em paz. Jamais a esquecerei.