A difícil escalada de um pensamento que não sabia voar.

[foto: Alice Valgas] [todos os direitos reservados ao autor da foto]

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Subiu e subiu rapidamente, por entre artérias, rasgando tudo o que não fosse útil no instante. Perdia –e prendia– a respiração bombeando o peito, o coração saindo pela boca, a boca calada sem falar o que devia, desejando apenas uma saída de emergência para fugir de si próprio. Mas pensamento teimoso não foge, não escapa, não cede. Sobe. Pensamento teimoso sobe.


– Desculpa por ontem.

Pensou alto. Enquanto subia, a frase o perfurava, furava a fila e passava à frente de todas as outras frases prontas que gostaria de dizer ao chegar ao topo. Pensava, ele próprio, na lista de coisas intermináveis a serem ditas. Vamos morar em Paris? – pensou nisso; você é linda – pensou também; beijo – finalmente, pensou. Neste último momento, percebeu que havia chegado onde queria. O topo, a mente, o degrau mais alto para quem, como ele, era um pensamento. Vou sair. Antes de concretizar sua fuga da imaginação, entretanto, olhou para baixo. Vou sair. Viu nuvens aos seus pés. Estava roto. Seu mundo estava roto. Nuvens aos pés. Um beijo, Paris, desculpas, que linda. Tinha ido na direção oposta, era agora um pensamento enraizado. Quis voltar. Quis voar. Talvez não fosse capaz. Amor – pensou. Pensamento teimoso não foge, não escapa, não cede. Beijou as nuvens aos seus pés; e voou.