Mulher, quis te deixar algo simples.

[foto: Guilherme Nunes]  [todos os direitos reservados ao autor da foto]

[foto: Guilherme Nunes] [todos os direitos reservados ao autor da foto]

Que fazes? Respondo, sem pensar, conto histórias. Como um professor que narra acontecimentos? Não, invento-as. Ah, então contas estórias? Faço cara de desgosto. Não, odeio esse erro de costume. Estórias, nunca. Todas histórias. Estórias, nunca, esta invenção desnecessária para resolver um problema inexistente. Odeio este erro. Teu conterrâneo João Guimarães Rosa escreveu “Primeiras estórias”, na capa. Digo que talvez tenha sido seu erro mais grotesco. Machado de Assis, certa vez, disse não gostar de “estórias”, também. Confio mais em Machado que em mim. Ziraldo repete isso sempre que pode. Não confio em Ziraldo, mas ele sabe demais o que diz. O que viestes fazer, por fim? Contar uma história. Cedeu o gentil sorriso que acena, para a plateia, um ponto final na breve, mas intensa, veja onde ele me meteu, apresentação. Aplausos bons, mais curiosos que admirados, em minha direção. Sorrio em retribuição, o sorriso travessão que dá a chance de iniciar minha apresentação no pequeno teatro. E inicio assim:

– Mulher, quis te deixar algo simples. Menos que amor –filosofia cansa, termina em verdades unilaterais. Falo do simples, do essencialmente simples. Do que não tem motivo para começar, nem razão para continuar, nem desculpa para acabar. Quis te deixar isto: carinho. Quão diminutivo, quão poderoso? Carinho desprovido de qualquer intenção sobre o futuro, este que sequer existe. Uma mão, minha, aquela que passa pelo teu cabelo, na antessala do sono. Teus olhos fechando e os meus, abertos como nunca, a te ver dormir e apagar meu mundo. Meu nariz a tentar desvendar – às quartas-feiras, que era quando, distraída, saías sem colocar o perfume do vidro para sair apenas com o perfume do corpo – teus corredores. Meus pés a aquecer os teus quando o inverno nos encontrava escondidos na cama. O carinho solícito de um café coado. Quis te deixar algo simples como uma água sobre o criado-mudo, uma nova toalha no banheiro, uma chave silenciosa por baixo da porta para não te acordar quando fui embora. Essas coisas pequenas que fazemos e nos tornam grandes na vida de uma outra vida que não a nossa. Teu retrato na moldura, tua música na fita, teu ímã na geladeira. Quis deixar carinho, mulher. Sem saber quão diminutivo, quão poderoso seria, deixei palavras. Sem saber motivo, razão ou desculpa, rasguei o papel. Sem saber sobre o futuro, escrevi no teu céu, para que não te olvides do que é simples.


E assim contei sobre mim no pequeno teatro.

 

 

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[Essa foto de Guilherme Nunes é, honestamente, um dos maiores presentes que ganhei na Loja de Histórias, durante estes vinte meses de existência. Foi a partir do olhar dele para o céu de Lisboa – e de outras pessoas que o acompanharam nessa descoberta –que os cabos dos eléctricos da cidade contaram sobre um carinho dos melhores, aos meus olhos distantes. A certeza (incerta) de que até nos encontros dos fios que movem uma cidade, podemos ver os encontros por um fio das relações humanas. E o nome disso é – e sempre será, ainda bem – história.]

Para conhecer o LX Type, projeto que Guilherme (e os demais profissionais envolvidos) fizeram ao olhar para o céu de Lisboa, clique aqui e assista.

 

 

Pensou alto.

[foto: Beto Figueiroa]  [todos os direitos reservados para o autor da foto]

[foto: Beto Figueiroa] [todos os direitos reservados para o autor da foto]

 

Pensou em música. Ouviu. Em foto. Viu. Pensou em comer, a fome bateu – mas logo veio uma mão santa a depositar um sabor precioso de panela, bem diante do seu nariz de perdigueiro. Uma noite, já tarde, insone, pensou na madrugada. Abriu os olhos, o sol nasceu, pensou em chuva, nublou a cidade que ainda esperava pelo outono, pensou em guarda-chuva, estiou. Pensou em ler. Mia. Pensou em jogar. Baralho. Pensou em amor. Ela. Sexo, Gabriela. Em banana, queijo e açúcar; canela.

A sua cidade estava espremida. Entre o mar e a areia, arrecifes para conter as ondas. Entre a areia e o parque, arranha-céus para conter o vento. Entre o asfalto e o morro, a miséria para conter a vida. E ele não continha-se em revisitar as suas memórias, naquele instante derradeiro. Lembrou. Quando era pequeno e tudo parecia tão grande, assustadoramente alto e volumoso, achava normal que fosse assim e as pessoas, descontentes, se contentassem com tão pouco. Cresceu achando a normalidade o melhor que poderia ter para si, até entender que não era normal que pensasse em gol e a bola entrasse, sempre. A mãe encomendou reza, macumba, missa, batismo, palestra, workshop, procissão, programa de televisão, todo tipo de merda alimentar que pudesse salvar o filho maluco e poderoso: osso de galinha, vitamina de amêndoa, manga verde chupada no pé, sem o uso das mãos – o que os levava a uma cena curiosa, o filho na ponta dos pés, todo esticado para morder a fruta, enquanto a mãe misturava torcida – vai, menino – e esporro – vai, menino! – para estimular o coitado. Coitado. Não adiantava. Ele pensava madura e a manga caía aos seus pés, caroço duro, coração mole da mãe, que chorava e ele pensava lenço e ela sorría sem razão, igual a ele, sem razão.

Estava lá, quase consciente, quase não, pensava pouco e quase nada acontecia, só uma mistura torta sonora, um samba e uma oração tocando no alto do morro.

 

Minha senhora da Conceição

Dá tua mão

Me leva

Devo

Não: eu nego

E renego

Negocio minhas dúvidas

Pela mão, minha mãe Rainha

Que tanto me condenam

 

E a cabeça não conseguia pensar em cura, sono, alívio, nada que se apresentasse como solução para a dor de quem fica. Pensou em morte.