Quem vem lá?

A gente havia voltado da Praia do Patacho e a cabeça, quando volta da praia, continua vendo ondas, horizonte e céu. Estava assim, mergulhado para fora, ainda, mas precisei ir a São Paulo – a cidade que nos distrai de nós mesmos – para um trabalho. Na mesma noite em que cheguei na cidade cinza, à noite, Lua me mandou uma mensagem de texto perguntando se eu poderia fazer um Facetime. Com as crianças, pensei. Apenas com ela, ouvi. Sim, ligamos no Facetime e a imagem dela sentada no banheiro me deu um misto de déjà-vu com o típico frio na barriga de algo novo por vir. Um sorriso meio amarelo e duas listras completamente rosas no teste: estamos grávidos.
Já não é um mistério ligar para cada membro da família e dizer: estamos grávidos. Foram três vezes, antes. Somos craques nisso. No caso de Teresa, o anúncio da gravidez sempre foi sucedido por um susto. E familiares, esses bichos curiosos, têm reações diferentes diante do espanto. Uns tentavam disfarçar (o susto) pedindo para repetirmos, dizendo que ligação falhou. Outros gargalhavam (de nervosismo). Uns verbalizavam suas surpresas da forma mais honesta – quê?, mais um?, vocês têm certeza?
A gente sempre preferiu as reações das avós e dos avôs. Depois de um eita, de um puta que pariu, de um não acredito, vinha uma alegria incontida, uma euforia esperançosa. Sim, porque filhas e filhos são motores de crenças. Mesmo em quem já tem idade para não acreditar mais em nada. Vocês são os incensos da gente.
Contamos para João, Irene e Teresa num café da manhã de domingo. O nosso petit-déjeuner cotidiano, nossa primeira refeição, um dos nossos pontos de atenção na relação familiar: começar o dia comendo juntos pode fazer com que o restante deste dia seja reinventado. A reação de Teresa foi a mais engraçada, começou a dar nomes aleatórios para você. A reação de Irene foi a mais agregadora, nos convocou para um abraço. A reação de João foi a mais emocionada, chorou e abraçou sua mãe. Tudo dentro de um roteiro conhecido por nós, já que esses três têm personalidades e comportamentos já tão evidentes, marcantes, particulares.
Lua e eu tivemos momentos de preocupação. Um quarto filho? Cabe? Sempre cabe. A gente já havia falado sobre ter mais filhos, sobre adotar, sobre tudo que se relaciona com a possibilidade de transformar a nossa casa – esse pequeno cosmo – numa representação do que acreditamos que pode ser o mundo. Mas a realidade, saber que estamos na direção de um novo encontro, nos colocou um chão estranho sob os pés.
Se você que está lendo isso só nos conhece das redes sociais, você sequer imagina como é isso. Mas hoje, pela primeira vez aqui, eu conto: nossa casa tem portas abertas. Literalmente. Amigas e amigos, parentes, velhos conhecidos e velhos amores sabem. Não há chave, nem tranca, não usamos campainha. Aliás, até o nosso carro dorme aberto na rua. Bata duas vezes e entre, porque essa casa nasceu para ser nossa. E aí, nesse espaço nosso, filho, você anunciou que vinha – e somente no dia 23 de novembro de 2016 ganhou um nome, quando soubemos, enfim, que seria um menino.

 

Joaquim,

você não é filho da sua mãe e meu, apenas. Você é filho de todos que nos cercam. Você é filho de Ana e Luís, filho de Luciana e Joaquim, filho de Márcia e Rodrigo, filho de Nathália e Marcel, filho de Ana Paula e Busta, filho de Fernando e Lúcio, de Renata e Gustavo, Carol e Carlinhos, Ana e Fábio, Carol e Rildo, Paulinha e João, filho de Juca e Pio, de Karen e Fred, de Alice e Hugo, de Luiza e Hilan. Você é filho de Lydia e Marinês, que são avós suas. Filho de Ângelo e Homero, avôs. Filho de Joezil, bisavô. De Eunice, bisavó. Filho de Mariana e Rafael, que moram poucos andares abaixo de nós. Filho de Dinha, essa moça incrível que trabalha diariamente na nossa casa. Filho das mães e pais da escola das suas irmãs. Filho de amigos próximos, de amigas da vida, de quem nos cerca – da portaria do prédio à sala da professora de yoga. Você é filho deste mundo que se apresenta diante dos seus olhos ainda míopes, mas que logo estará claro e aparente. Esse mundo complexo, diferente, diverso, múltiplo, plural. Você será filho de Chico e Caetano, ainda, espero. Mas também será de Liniker, tomara. De Elza, espero. Atravessará colos tantos, acolhidas tão distintas, que sentirá que sim, doutor Einstein, o Universo é amigável. E aí, filho, ao ver este mundo de tão perto e notá-lo tão imenso, mas acolhedor, você dará seus passos próprios, inventará outros mundos dentro deste. Mundos que sejam seus e só seus.
Levei três filhos para descobrir, Joaquim, que nossos filhos não são apenas nossos. E que filhas e filhos dos outros – conhecidos ou não – também são da sua mãe e meu. Porque cruzamos os caminhos e as vontades dos outros e respeitar os caminhos e vontades de uma criança é nos preservar como espécie. Descobri que se este – e apenas este – for o exercício principal de cada um de nossos dias, já é uma enorme contribuição para a Humanidade: olhar para as crianças com o máximo de respeito e amor.
Você não foi planejado. Nem João. Nem Irene. Nem Teresa. Mas nem o reencontro entre sua mãe e eu foi planejado, filho. Ou seja, temos uma segunda descoberta com a sua chegada. Que é melhor continuarmos assim, sem planejar, que a vida se encarrega de nos dar as melhores surpresas.

Notas sobre seus irmãos

Teresa é a ajudante oficial da casa. Está sempre disposta a trocar sua fralda, acompanhar o banho, checar se a mamada vai bem, se você dorme quando ela chega da escola.
Irene é a que respeita mais os seus tempos, compreende que há ainda um tempo até que você chegue na idade tão esperada por ela, quando você começará a interagir e será, certamente, o melhor brinquedo que ela já teve.
João é a ternura que vai te acompanhar daqui para a frente. O irmão que se preocupa, que olha com um amor nos olhos que me emociona cada vez que presencio.
Saiba que nenhum deles o recebeu com quaisquer tipos de insegurança, ciúme, medo de perder espaço. Talvez por já se entenderem como grupo, esses três pequenos indivíduos que você chamará de irmãs e irmão, já estavam prontos para você.

 

Lua,

havia prometido a mim mesmo que não iria ter uma cartinha aqui no meio para você, mas descumpri a promessa porque hoje, uma vez mais, vi o seu tamanho. É o quarto parto na sua vida. É para poucas. É para menos ainda levar as dores e as flores deste momento da maneira que você leva. Você tem amamentado com dores, sangue e lágrimas. E eu jamais saberei o tamanho da dor física e da dor emocional que isso traz. Eu jamais saberei o que é ser mulher, me perdoe. Quero, apenas, estar presente quando você abrir os olhos, quando a dor aliviar. Quero ser a mão que você vê quando aquela tontura bate. Quero ser um lembrete constante do meu papel, para que você jamais esqueça do seu protagonismo, porque você é onde tudo começa. É a partir de você que a nossa existência é possível. Porque não há mulher forte e frágil como você. Não há mulher humana como essa que você vê no espelho. Você é gigante, pequena.
 

Agradecimentos depois que este mundo novo nasceu

Lissandra e Letícia, muito amor pelo que vocês fazem na Nascentia.
Marília, isso se estende a você.
Bianca, que loucura saber do seu reencontro com Lua e ver que você tornou-se a doula dela nesse processo. Mundo pequeno, que sorte.
Amigos da Vivendo que se dispõem, todo santo dia, a nos ajudar: muito, muito, muito obrigado. Vocês me emocionam.
Gabi, impressionante saber que depois da sua história de renascimento, você encontra forças para estar perto de outros nascimentos. Te admiro um tanto.
Muito obrigado também a cada mensagem de texto, email, comentário, post, foto, presente, delicadezas embaladas ou não que nos chegaram depois que Joaquim chegou. Sentir-se amado é uma sorte, sei e valorizo isso.
Aos parceiros de trabalho que estão em andamento justo nestes dias, meu obrigado pela compreensão e ajuda (aqui vai especialmente para Pio, Dani, Pipo, Tati, Bazinho, Heloísa, Victor, Vivi, Caio, Claudinha).

foto: Angelo Lima

foto: Angelo Lima

A gente havia voltado da Praia do Patacho e você já estava entre nós, filho. Você era o nosso próprio mar de horizonte claro e ondas leves. Até que às 21h38 do dia 25 de maio de 2017, enquanto sua mãe estava no banho e a bolsa estourou, vi que era hora de trocar a calmaria pela violência de um mar aberto, a força da natureza que é parir. Uma hora e dez minutos depois, você já estava nos nossos braços, depois de ter me feito pensar que, talvez, fosse a minha vez de ver um parto da sua mãe sozinho – já que tudo foi tão rápido e quase que as parteiras e a doula não chegaram a tempo de acompanhá-la. Você chegou intenso. E de certa forma eu havia previsto isso, quando – depois de saber que estávamos grávidos – escrevi a letra de uma música para você. Uma música que traduziu o que para mim seria o seu nascimento.

Créditos e letra da música Quem Vem Lá? estão aqui: youtube.com/pedrinhofonseca

Quem vem lá? Música para vencer a agonia que é esperar pelo filho que irá chegar. Música para nascimento e morte. Seu sorriso que nasce, nosso choro que morre. Nosso colo que nasce, seu cordão umbilical que morre. Um silêncio que morre tarde da noite, uma festa que acorda cedo.
O seu nascimento é a minha morte, Joaquim. Mais uma. Outra chance para eu me reinventar. Aqui estou, filho. Às 22h48 do dia 25 de maio de 2017, você nasceu e eu, mais uma vez, morri. Aqui estou, filho. Pronto para renascer diferente de tudo que já fui. Obrigado por isso.
 

Do seu pai,
Pedro.