Saudade, amor.

Essa é você, hoje. 20 de janeiro de 2016. Nove anos depois da gente casar.

Essa é você, hoje. 20 de janeiro de 2016. Nove anos depois da gente casar.

É difícil demais te fazer surpresas. Você me conhece, muitas vezes, mais do que sei de mim mesmo. Tem sido assim desde a minha previsível aproximação, em Porto de Galinhas, há vinte anos. Sentada, balançava as pernas, antecipava cinematograficamente a música que a recebeu no altar (tantos anos depois).

Você era aquela menina de Gerânio: ela que descobriu o mundo, sabe vê-lo do ângulo mais bonito/canta e melhora a vida, descobre sensações diferentes/sente e vive intensamente. Da minha abordagem na hora errada, nasceu a amizade na vida certa pela sua capacidade de espremer uma laranja e fazer, sei lá, Aperol Spritz. Tantos tempos depois, em Barcelona, de novo. Eu esperava minha (a essa altura) amiga querida. Chegou a mulher que eu, de certa forma, não conhecia – porque ainda não me habitava os sonhos, o que era uma questão de tempo a partir daquele momento. Me apaixonei de novo por você, mas desta vez era mais forte que qualquer outra sensação e sentimento que eu pudesse ter sentido. 

Desnorteado, voltei ao Brasil e só pensava em você (o que me acompanha até hoje). Pouco depois, sua volta. Estava lá no aeroporto, te esperando. Quantas noitadas sem fim na Rua do Apolo, para celebrar sua chegada. Quantos shows, festas, encontros, motivos quaisquer criados da noite para o dia apenas para que a gente se visse, se tocasse, se ouvisse. E as desculpas cada vez mais esfarrapadas – até a madrugada no Fran’s Café, onde resolvemos engolir o medo e soltar a vontade, já que os dois não caberiam juntos na mesma boca, nem no mesmo peito, nem nessa história. Dali por diante, foram tantos encontros e desencontros. As viagens. Os almoços (lembra do coreano maravilhoso no Espinheiro?; aquele dia foi mais uma despedida linda). Os filmes. Os amigos que foram, também, se encontrando em nós, novos laços dos seus com os meus, os nossos amigos. Descobertas, tantas. Frustrações, algumas. Risadas, todas. Choros e ombros, abraços e sufocos, sustos para soluços, anseios para o tempo, tempo para os anseios. Desencontros, de novo. Até que um dia, e desse lembro tão bem, chamei Maria Ângela, minha chefe amada, quase mãe, para conversar na janela da agência em Vitória. Disse a ela que voltaria ao Recife. E ela me perguntava a razão, o motivo, logo agora que tínhamos construído algo tão, tão, tão – vou encontrar a mulher da minha vida, Maria Ângela. 

E ela silenciou, me abraçou e disse vai. Fui. E lá estava você, mergulhada no carnaval, namorando, vivendo a sua vida enquanto eu via a minha vida refletida bem diante de mim. Esperamos até o final de abril. E lá foi você renovar a alma no São Francisco, enquanto segui para Maceió. Na volta, 1º de maio, Recife, o almoço que selou o reencontro eterno. Dali por diante, nunca mais nos separaríamos. E poucas semanas depois, lá fomos nós para o cartório da praça, com a prima Ju, única testemunha. A partir daquele momento, o que se desenhava na minha vida era isso: uma relação incrível, que conservava a amizade de quando nos conhecemos, a minha admiração pela sua inteligência, persistência, generosidade, respeito. Pela sua capacidade de manter suas amizades da vida inteira. De trabalhar tão focada. Uma relação onde o tesão não tem fim. A alegria de saber que meus filhos são seus – e isso dá a eles a enorme vantagem de ter um norte. Você é o ser humano que mais me motiva a querer ser o mais humano, a cada dia. E aqui, sim, começa meu texto de hoje.

Foto: Pio Figueiroa

Brasília, 20 de janeiro de 2016.

Saudade, todo dia, é amor. O sentir falta quando se vai ali na esquina, quando não se volta cedo, quando entre o ir e o vir demora-se mais do que um instante. Saudade de coisa pequena: cheiro no cangote, massagem no pé, passeio delicado da mão pela bunda. Saudade do mais fundamental e necessário: sua voz, sua opinião, seu ponto de vista, seu repertório, seu jeito de encarar as coisas que nos cercam, seu exemplo. Quando vou ali numa reunião em São Paulo. Quando você vai ali fazer um curso. Ali é sempre tão longe. Quando estamos na mesma cidade e por uma infelicidade, se põem entre nós ruas engarrafadas, semáforos daltônicos, chuvas que alagam a esperança. Saudade do bom dia ou do boa noite, quando as horas desmarcam nosso encontro na cama. Do abraço que nunca termina – assim estamos, abraçados, desde que sabemos um do outro, separando-nos momentaneamente para, vez ou outra, comer, dormir, tomar banho. E voltar para o mesmo abraço contínuo para a saudade matar. Ela não morre. Ela não cede. Ela não cessa. Sinto sua falta em distâncias curtas, tempos ligeiros e desconexões do wi-fi surrado do café. Penso na sua existência como a chance única de mudar o mundo, ao olhar para João, Irene e Teresa e pensar que nossa vila cresce de dentro para fora. Que orgulho. Saudade, tenho do seu sorriso quando as lágrimas vingam. Saudade, tenho das suas lágrimas quando se engole o choro no mais difícil dos dias. Se você não está no lugar e eu estou, estou no lugar errado. Se estou no lugar e você não está, está na hora de voltar para perto. De longe, você é a melhor paisagem que vejo. De perto, é quase miragem, inacreditável que esteja diante de mim. Que sorte. Nesses 9 anos de casados, senti saudade em cada um dos dias, em pequenos momentos onde não te via. Porque te perder de vista sempre é me perder. Porque sua falta me deixa desarrazoado. Porque estar longe é perder a bússola que mora no meu peito. Porque saudade, todo dia, é amor.

Talvez uma das únicas fotos nossas, juntos, assim. Como estamos boa parte do tempo quando estamos juntos. Nos amando. Registro de João, nosso filho. Alegria enorme em achar essa foto.

Saudade, carnaval.

Minhas memórias são confetes. Partículas dilaceradas de beijos, abraços intermináveis pisoteados, rasgos de choros, chuva, suor e cerveja. Espalhadas pelo chão da minha existência, são pequenas partes do que sou – quando me atiro para cima em momentos de alegria, quando caio de desgosto. Escuto o tambor silencioso dos meus filhos descobrindo com seus próprios olhos a corrente humana que protesta. Carnaval é protesto. Com baderna no peito. Quebra-quebra de verdades postas. Destruição do patrimônio individual, que somos nós mesmos, das nossas pernas, braços, bundas, cabeças, que não sobrevivem até a quarta-feira. Mas insistem em renascer quando o clarim anuncia, na manhã seguinte, que ainda é, ainda tem, ainda estamos lá, ainda somos exatamente o que queremos ser. Livres. O sangue corre bicolor, vermelho e amarelo. Do meu último carnaval, levei essa porção de confetes na pele: uma família que descobri. Que nos abriu as portas do seu bloco, nos vestiu com as roupas da sua casa, nos alimentou de um amor que, ah, um amor que só mesmo em Olinda. Eu Acho é Pouco, mundo. Eu acho é pouco que você acredite que é na violência, na truculência, na intolerância e no desrespeito que a gente se entende. Não é. A gente se entende é nessa vida chamada carnaval.

Saudade, Weno.

Entra, senta, conversa e sai. Sai diferente do que entrou. Da entrada ao café, o menu era assunto. Ao redor da mesa, o alimento. Gente. Quis saber da Suécia, a viagem. Você me contou do encontro com o desconhecido que também gostava de cozinhar e entrar em lugares onde nunca havia ido antes apenas pelo prazer de degustar a surpresa – uma viagem. Quis saber da mistura da mãe portuguesa com o pai filho de japoneses. Sai fartura e disciplina, você me disse. Sai você. Generosidade em abundância, talento nato convertido em habilidade inata. No meu baú de curiosidades sobre você, amigo, havia ainda o tema casamento. E seu olho brilha como quem fala música. MaWa é daquelas mulheres que só se apaixonaria por um cara feito você. Ela é tão verdadeira e honesta com seus próprios valores quanto você. Até que chegamos a um dia desses e vocês dois já não são mais dois. São um mundo, são três. Michel chega. Mais um para essa mesa que cabe tantos, cabe tanto.

A receita de amor perpetua-se desse almoço marcado aos encontros inesperados. Há pouco dissabor, quase nada; há apenas a delícia de dividir um tempo bom. O tempero daquelas amizades que cozinham lentamente, em fogo brando. Nos vemos menos do que eu gostaria, mais do que mereço. Você é da troca e quanto mais gente trocar com você, melhor ficam as pessoas que sentam à mesa para um bacalhau, numa sexta, sem pressa. Que mais gente mate essa saudade por mim.