Saudade, carnaval.

Minhas memórias são confetes. Partículas dilaceradas de beijos, abraços intermináveis pisoteados, rasgos de choros, chuva, suor e cerveja. Espalhadas pelo chão da minha existência, são pequenas partes do que sou – quando me atiro para cima em momentos de alegria, quando caio de desgosto. Escuto o tambor silencioso dos meus filhos descobrindo com seus próprios olhos a corrente humana que protesta. Carnaval é protesto. Com baderna no peito. Quebra-quebra de verdades postas. Destruição do patrimônio individual, que somos nós mesmos, das nossas pernas, braços, bundas, cabeças, que não sobrevivem até a quarta-feira. Mas insistem em renascer quando o clarim anuncia, na manhã seguinte, que ainda é, ainda tem, ainda estamos lá, ainda somos exatamente o que queremos ser. Livres. O sangue corre bicolor, vermelho e amarelo. Do meu último carnaval, levei essa porção de confetes na pele: uma família que descobri. Que nos abriu as portas do seu bloco, nos vestiu com as roupas da sua casa, nos alimentou de um amor que, ah, um amor que só mesmo em Olinda. Eu Acho é Pouco, mundo. Eu acho é pouco que você acredite que é na violência, na truculência, na intolerância e no desrespeito que a gente se entende. Não é. A gente se entende é nessa vida chamada carnaval.