TRIP TRANSFORMADORES 2014

Em 2014, fui convidado para escrever o livro de inspirações, roteirizar e dirigir os documentários que contam as histórias dos transformadores, fotografá-los. Tive a honra de convidar Daniela Arrais e Juliana Fava para, comigo, formarem a equipe que cuidou do conteúdo desse projeto. A alegria de ter, ao nosso lado, a produção cuidadosa de Carol Botelho. A deliciosa segurança de ter como líder do projeto Ana Paula Wehba. E a confiança de Paulo Lima. Por enquanto, abaixo, apenas as minhas fotos que compuseram a exposição que aconteceu no dia do evento de premiação, no Auditório Ibirapuera. Em breve, os demais conteúdos, inclusive os vídeos.


TRIP TRANSFORMADORES 2013

O PEQUENO LIVRO DOS TRANSFORMADORES
— design: Ana Luiza Gomes; ilustrações: Bruno Nunes; textos e fotos: Pedro Fonseca


Prefácio: você.

Ainda não nos conhecemos bem, perdoe começar assim, falando de você. O seu próximo passo pode ser o primeiro parágrafo de uma história nova, bem aí onde você mora, vive, trabalha, estuda e, sobretudo, age. Ainda não nos conhecemos bem, perdoe começar assim, revelando aos outros algo que, intimamente, talvez você não queira que seja dito, escrito, registrado. Você é uma pessoa importante no lugar onde mora, vive, trabalha, estuda. Pela possibilidade de agir, ganhou tal importância e reconhecimento. Este livro é sobre você – este primeiro parágrafo, portanto, não poderia ser sobre outra pessoa. Ainda não nos conhecemos bem, perdoe começar assim, mas dos leitores que este livro terá, certamente é o que mais poderá nos levar adiante, com suas atitudes para transformar o lugar onde mora, vive, trabalha, estuda. O Prêmio Trip Transformadores, há sete anos, identifica e reconhece você, que usa os dias a favor do bem-estar coletivo, entende e desempenha um papel questionador, inspira, move, mobiliza, descobre, partilha, caminha, corre, voa, sonha. E, sobretudo, age. Ainda não nos conhecemos bem. Mas este pode ser um bom começo.

Você, Claudia Andujar

Um autorretrato

Na sala da sua casa, nos recebe. É uma oca. Também é um altar, um santuário. Ali se reza de olhos fechados, ali se canta em silêncio, ali se corre lentamente. Sua fotografia e sua dedicação à causa indígena se confundem, como uma dupla exposição do que são os índios, do que são os não-índios, formando uma única imagem, outra, que se revela um legado para a civilização primeira do Brasil. O que dizer sobre você, que não seja sobre nós mesmos?

Você vive num mundo repleto de espelhos. Imagens que se projetam alternadamente, de ponta-cabeça, depois giram em torno do seu próprio eixo e, novamente, mais uma vez, até quantas forem necessárias para que se revelem à maneira que os olhos do outro veem e, com espanto, se deparem com a beleza das suas fotografias.

Seus registros dos índios ianomâmi são autorretratos. É você que está ali. De corpo e alma na causa em que se engajou, no universo que crê – e a criou no Brasil, a sua terra natal, depois de nascimentos outros, na Suíça, na Hungria, nos Estados Unidos. Até chegar aqui, nos desnudar, percorreu um longo curso sinuoso, em que cada afluente despejou um pouco de si, tomou um pouco do que você tinha a oferecer, tal qual se forma a vida caudalosa de um rio gigante rumo ao mar desconhecido. E você, rumo ao descobrimento de si própria, no país que também a vê como espelho.

Você, Daniela Mercury

Uma boca

Sai, palavra. Sai, canto. Sai, poesia. Pensamento encalacrado é trio quebrado na avenida. Você desce e empurra-empurra, se for preciso. Não cala. Sai, palavra. Sai, canto. Sai, poesia. Da sua fala nasce o pensamento, da sua ação nasce a fala, da sua boca sai o beijo que o país inteiro vê e participa. Um beijaço nacional. Pela tolerância, pelo amor. Sai, palavra.


Você e ela e o beijo. E o abraço que antecede (e sucede) os melhores beijos foi coletivo, abraço-apoio. Ei, estamos abraçados a vocês e ao respeito –disse a multidão. Um coro afinado entoando a canção que você compôs. As vozes ecoando em todas as partes. O coração batucando alto. Um carnaval na rua que passa por dentro da gente. Alegria agora. O instante eternizado. Agora e amanhã. A atitude, o legado. Alegria agora e depois e depois e depois de amanhã. A multidão parecia acostumada a seguir o roteiro pré-definido, mas bastou que alguém lá em cima do trio propusesse o novo caminho e, veja, já estamos livres de cordões de isolamento – comemoraram os foliões apaixonados. Você, porta-voz, cercada pelo mar de gente que não ousava cantar, mas já sabia a música de cor. Você e ela e o beijo. Quando dois são um, duas que são tantas e tantos. Ao decidir compartilhar a sua felicidade, fez feliz também a quem a seguia.

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Você, Edgard Gouveia Junior

Um mundo

Paraty é um lugar pacato. Você corresponde, devolve o que o lugar oferece, retribui com pausas, faz as frases terem ponto-e-vírgula; enquanto pensa, desenha no ar, com as mãos, ou com o olhar, o que está prestes a jogar. Você está no tabuleiro enorme e nos convida. Venham, venham. É esse lugar pacato que mora em mim que quero jogar com vocês. E cria jogos digitais que fazem as pessoas muito mais reais.



Você está para brincadeira. É através dela que vai ajudar a transformar a realidade de forma rápida, divertida e sem que seja necessário colocar a mão no bolso – toda vez que algo relevante pode ser inserido nessa atmosfera de jogo em que ninguém sai perdendo, sua teoria muda de roupa e vira prática. Um imenso tabuleiro, com múltiplos jogadores, chamado vida.

Não há heróis, não há líderes, não há joysticks. O controle está nas mãos de quem vai lá e faz, na cabeça de quem planeja, nos ombros de quem aguenta o peso, na boca de quem grita, nas pernas de quem é veloz o suficiente para chegar antes. O time é um só e luta contra o mesmo inimigo. A inércia diante daquilo que precisa mudar. Foi assim em Santa Catarina, com o Oásis. É assim com o Guerreiros sem Armas. Será assim com o Play The Call. A brincadeira começou. Sua estratégia: conectar pessoas. Seu objetivo: mudar o mundo. Seu ponto forte: acreditar. 

Você, Geraldo Gomes Barbosa

Uma sanfona

Inspira. Expira. Inspira. Expira. E nos intervalos, os sons de sopro, melódicos, os leves ruídos dos dedos nas teclas, rítmicos. Enquanto toca um xote, respira compassadamente, para nos servir os melhores frutos da história de um agricultor que, ao proteger as sementes crioulas, alimenta a esperança de tantos outros que tocam suas sanfonas pelo sertão brasileiro.



Você semeou a união da caatinga com o cerrado. Fez o encontro parecer um acaso, bem no meio do sertão mineiro; convidou a chuva, ela não foi – mas quem se importa? Parecia até festa de casamento, todo mundo chegando arrumado, pronto para plantar uma vida nova. O sanfoneiro puxou o fole, puxou um baião, puxou todo esse povo para dançar de pé descalço.

As sementes crioulas, distribuídas organizadamente em garrafas de plástico reutilizadas, armazenadas e conservadas sob seus cuidados, guardadas a muito mais que sete chaves (e mais alguns cadeados), servem para manter a tradição do plantio de alimentos indispensáveis para o sustento de milhares de famílias. Nem a seca é tão persistente quanto você. As crioulas são divididas e, ainda que a chuva não chegue, a colheita vai chegar. A música começa. Você toca e canta. Convida todo esse povo para a festa que até parece um casamento, mas é a celebração do plantio de uma vida nova.

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Você, Isadora Faber

Um clique

Rápido. Enter. Tudo muito rápido. Enter. A observação, a denúncia. Enter. A descoberta de que as redes podem nos conectar às soluções. Enter. Criar: Diário de Classe, uma página onde o descaso com a educação pública possa ser compartilhado. Enter. Criar: um movimento. Enter. Criar: soluções. Enter.


Você levanta a mão e pede a palavra. Faz perguntas. Por que a estrutura da minha escola é precária? Por que a merenda não é boa? Por que os professores e funcionários estão desmotivados? Por que isso não acontece na escola particular onde a minha irmã estuda? Alguns tentam apagar a lousa. Mas depois de muito tempo de uso, é impossível esconder certas respostas.

C-i-d-a-d-a-n-i-a. Letra por letra, a palavra aprendida e disseminada no seu Diário de classe. O seu instrumento, que contou com uma adesão bem maior que as fronteiras da sala de aula. A cada ação – suas contestações, reações –, ameaças da diretoria, de funcionários, professores e até colegas. Mas você ainda estava com a mão erguida e continuou a questionar. E mais questões, você bem sabe, pedem mais (e novas; e melhores) respostas. Elas começaram a surgir: estrutura, alimentação, corpo docente. Tudo começou a mudar. Mas é apenas o começo. Você tem apenas 14 anos.

Você, Marcelo Freixo

Um dia

É cedo. A mesa está posta. Café, pão, queijo, bolo. A conversa está posta: cadê Amarildo? Ele é um, de muitos –você diz. Um absurdo. Você diz e repete: a gente só não pode desistir. Desistir seria me matar. Eu não vou sossegar. Você é sossegado, fala baixo, mas deixa claro: não vai sossegar. E ainda é cedo. E nunca é tarde.

Você entra no presídio. O clima tenso anuncia a batalha. De um lado, os uniformizados. Do outro, o grupo sem camisa. Os dois lados se encaram. Com frieza. Algum temor. Mas seus passos estão firmes. Um homem de preto, no centro de tudo, apita. Começa uma daquelas peladas de fim de semana que fizeram você entrar em um presídio pela primeira vez.

Aos 17 anos, você poderia ter visto uma oportunidade como promessa do futebol. Preferiu ver o outro lado do muro, enxergou as condições desumanas encontradas pelos presos naquele ambiente hostil, resolveu entrar em campo. O que veio a seguir: marcação cerrada sobre adversários que tentam ameaçar a defesa dos direitos humanos, seja como professor, sindicalista, deputado – a posição não importa. Ainda que os zagueiros passem a partida inteira tentando impedi-lo, você não desiste. E tem consciência que o jogo não está ganho. Acabou de começar.


Você, Marcos Flávio Azzi

Uma ruptura

Dos seus questionamentos, ao vender a sua empresa e desejar mudar de rumo, surgiu a necessidade de se isolar no deserto e perguntar a si próprio qual seria o próximo passo. Escolheu usar seus conhecimentos a favor da filantropia. Escolheu as pessoas. Hoje, você não está isolado no deserto, mas cercado de quem ajuda e é ajudado.

Você viu o abismo e construiu uma ponte. Ao ligar a riqueza à pobreza, antes em margens distintas, solitárias, deu início a um pensamento novo, coletivo, sobre a filantropia no Brasil. Provocou: encontre uma causa que o emocione; doe sistematicamente uma parcela considerável do seu dinheiro; deixe um legado familiar de apoio a essa causa. Pode atravessar. Seu ponto de mutação (quando se transformou neste construtor de pontes sociais) aconteceu no deserto. Doze dias de solidão, olhando para a imensidão do nada – que tinha tanto a dizer. Deixou o mercado financeiro para trás, criou um instituto que carrega o seu sobrenome, passou a ajudar pessoas físicas de alto poder aquisitivo a investir em projetos sociais significativos. O lado mágico da ponte reside no fato de que a partir de uma margem, qualquer que seja, não se vê a outra. Assim, os que ajudam e os que são ajudados transformam suas vidas com a troca mais rica que pode haver. A gratuita.


Você, Marilena Lazzarini

Um direito

Você criou o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor. Mas sua luta pelos direitos do consumidor vem de antes. O princípio, bem, são os seus princípios, valores éticos, responsabilidade diante da sociedade. Seus fins não são lucrativos. Ganhamos todos, pois.


Você atende o telefone. Linha cruzada. Uma voz desconhecida pede ajuda, teve problemas e (…); a interrupção vem da outra voz, que se desculpa, diz que infelizmente não poderá (…); outra interrupção e a voz desconhecida diz que está se sentindo lesada, que a voz corporativa precisa (…); as vozes se sobrepõem num diálogo incompreensível (…); até que você entra na conversa. O consumidor pagou por determinado serviço ou produto, sente-se prejudicado e agora espera que determinada empresa ou companhia o ajude a diminuir essa sensação. Ele não é o único. São muitas queixas por parte dos cidadãos – outros tantos nem sequer são ouvidos, por não terem acesso aos canais de reclamação. Você cria uma organização para defender os consumidores sob a perspectiva da coletividade, onde grupos recebem orientação, conscientização e veem os seus direitos serem respeitados. Atua junto às agências reguladoras. Compra briga com grandes corporações. Ouve o consumidor. Você não desliga.


Você, Paula Dib

Uma flor

E essa mulher, ao desabrochar, trouxe de dentro tanta beleza que lhe escapou para fora. Precisa regar? No sol ou na sombra? E esse jarro, parece adequado? Seu pólen se espalha: em Moçambique, cria brinquedos pedagógicos com o que a comunidade tem a oferecer –bambu e palha de milho. Faz arte em Londres e afasta os conflitos do playground. Apoia os sapateiros do sertão. Descalça, nos recebe. Procuro raízes fincadas, mas não há.


Você tem raízes aéreas. Cresce na favela e na tribo aborígene, em Londres ou Maputo, no Sertão do Cariri. É a orquídea de cores inomináveis – em camadas incontáveis, sobrepostas – que habita pequenas fendas nos muros onde antes só havia a pedra, o cinza. Deixa-se levar pelos passarinhos para destinos desconhecidos. Voa, aprendeu a voar cedo. Sabe de onde veio, imagina aonde pode chegar, prefere abandonar a ideia de início e fim – para viver o caminho. Floresce durante o processo. Aprende enquanto ensina enquanto aprende enquanto ensina. Usa o design como vento que ajuda a carregar suas sementes para os lugares onde sempre quis estar. Desenha jardins de gente, brinquedos de sorrir, escolas de vida, inventa estrada para as sandálias de couro caminharem pelo mundo. Seu trabalho pode ser visto em olhos de crianças brilhando. Você gosta de dar sentido às coisas. E as coisas devem gostar do sentido que você dá a elas.

Você, Sandro Soares

Um rolê

– Vou rapidinho naquela quadra, está vendo os meninos chegando com a rampa?, vou ajudá-los a carregar, depois dou um pulo em casa para pegar os sucos, alguém vem comigo?, e esse circuito aí que vocês montaram, cuidado com os bancos, tem que cuidar, gente, cuidado com os pequenos também, estão só aprendendo, cuidado.
A gente é que aprende com você. Vamos na rampa?


Você não vai cair. Apesar do frio na barriga que ainda insiste em aparecer, mesmo depois de tantos anos. Você não vai cair. Mesmo quando, do alto da rampa, prepara-se para descer e o corpo pede para frear. Você não vai cair. Ainda que a manobra pareça impossível. Você não vai – mas, se cair, levanta, tenta novamente. Assim ensina o skate.

As crianças da Fundação Casa não tiveram oportunidade, não conheceram a cultura e o estilo de vida dos skatistas. Tinham a sua idade, na época em que você foi de penetra na exibição de profissionais na unidade do Tatuapé, mas era perceptível a distância entre os seus horizontes – e você viu de perto. Esse foi o alerta que o encorajou a iniciar um trabalho que culminou com o Social Skate. Hoje, ao olhar para as crianças mobilizadas pelo projeto, fica evidente que elas estão dispostas a enfrentar o frio na barriga, as rampas altas, as manobras difíceis. Se alguém cair, você estará por perto. 

Você, Julia.

Você prefere banho quente, demorado, fecha os olhos e se deixa escorrer pelo ralo, corpo aquecido, poros dilatados, o exorcismo do vapor, durante o tempo que for preciso para esquecer as agruras de uma quarta-feira nublada na capital paulista –Que dia é hoje mesmo?, –Que dia feio!, reclama em pensamentos (e afoga-os na sequência), mergulha na superfície de cada problema diário, afunda, respira, volta, demora, demora, demora. Na sala, a TV ligada conversa sozinha, se queixa do avanço do mar em Maceió.


Você, Luís.

Você fica preso no trânsito – e ele em você. Por você não andar, ele não anda. Por buzinar, ele buzina. Por estressar, ele estressa. Seu passatempo: olhar para o carro ao lado e imaginar a vida do motorista. Ao olhar para o carro da esquerda, se vê ao volante. Ao olhar para o carro da direita, se vê novamente. Pelo retrovisor, você dirige um caminhão. Passa de moto e arranca seu próprio retrovisor. Atravessa fora da faixa e é atropelado por um pensamento rápido.


Você, senhor Nilton.

Você estampa o sorriso corriqueiro.
– Boa tarde, tudo bem? Já escolheram os seus pratos? Se quiserem, posso [é interrompido pelo homem à cabeceira, que diz não precisar de ajuda e que, quando escolherem, chamará, ele mesmo, o garçom invasivo; usa este termo: invasivo].
Pede licença, guarda o bloco de notas no bolso, observa ao redor, enxerga uma mão levantada, segue na direção do casal.
Você estampa o sorriso corriqueiro.


Você, Rosa.

Você não solta a mão dele. Já são dezesseis semanas, sem reação alguma, nenhuma mudança de quadro. Estar ao lado conforta. Não cura, mas conforta. As flores na mesa ao lado são renovadas diariamente – são rosas.


Você, Victória.

Você abre a janela, sobe no banco de madeira e presenteia a cabeça com o lado de fora. Cerra os olhos. Sente o cheiro do mato, escuta o tilintar das britas no corpo do trem, pensa em Manoel de Barros.
– Ela também caçou o meu jeito, poeta.
E deixa a liberdade estapear seu rosto.


Você, Alícia.

Você aperta a mão do chefe, confirma que aceita o desafio. Passa pelos colegas; desconfiam, mas não sabem. Amanhã, estará sentada na mesa imponente, de frente para todos, com um salário mais alto, mais responsabilidades, mais reuniões, mais decisões importantes, mais viagens para o exterior, mais xícaras de café, mais noites sem sono, mais compromissos para pagar, mais distância dos filhos; mais um passo, outro, e outro, mais outro, você não para. Continua. Precisa continuar. Foge.


Você, Bernardo.

Você ainda não sabe ler, falar, comer nem tomar banho sozinho, expressar dor ou contentamento, pedir água, ajuda, música. Da vista do seu ponto, esse imenso derredor agitado não faz sentido algum. Uma questão de tempo. Você aprenderá a ler, falar, comer e tomar banho sozinho, expressar suas dores e contentamentos, pedirá água, pedirá ajuda, pedirá uma música para alegrar o seu dia. Talvez adiante alguma coisa. Talvez o imenso derredor continue sem sentido.


Você, João.

Você abriu a porta e, como de costume nas casas de São José do Egito, colocou uma cadeira na calçada e ali ficou. Esperou o tempo passar – e ele passou no finzinho da tarde. O tempo era uma menina voltando da escola para casa. Você perguntou:
– Ei, menina, está apressada?
Ela sorriu e acelerou o passo.
– Menina! Menina! Volte!
Ela não voltou.
Nem podia. Ontem, você não havia colocado sua cadeira na calçada.


Você, dona Inês.

Você lembra do seu casamento? Tinha uma tiara de flores delicadas na cabeça, um vestido branco e leve, uma brisa matinal, um sorriso no rosto. Guardou as minúsculas flores na caixa de madeira. Dobrou o vestido branco quatro vezes até que coubesse na parte superior, estreita, do guarda-roupa. Abriu as janelas cada manhã de sol que viveram. Jamais precisou guardar o sorriso.



Você, Serafim.

Você me prometeu um samba assim:
– Trouxe o surdo? Trouxe o tamborim?
Que falta fez quando partiu sem avisar, sem me levar. Deixou pra trás o acorde, o acordo, acorda, a cor. A dor que a gente dividiu por dois, por tanto tempo. No entanto foi agora, enfim. E assim o samba chega ao que será o fim.
[Era um fim. Mas música espanta o que não é vida.]